Às 22h de terça-feira, chamo um amigo para irmos de carro conversar sobre a viagem no Café com Letras. Ele, um admirador de BH, comenta que não percebe BH tão provinciana quanto eu percebo, talvez por ele fazer parte dela, talvez por eu ter tido experiências diferentes das dele, talvez por ele não ser tão facilmente afetado pelos outros quanto eu. Depois de eu contar detalhes que somente dizemos entre amigos sobre a exposição excessiva do sexo, ele surpreso considera que talvez seja melhor sermos como somos em BH e que temos motivos científicos para isso. Ele bem provavelmente tem razão.
No almoço de quarta-feira, meus avós se sentam na mesa com meu pai, minha mãe, minha irmã e comigo. Minha avó faz então as perguntas mais relevantes que já me fizeram sobre a força das mulheres alemãs e sobre o trato ruim para com os idosos. Três perguntas e só. Todos se interessaram em ouvir as anedotas em resposta à minha avó sobre o que aconteceu na minha presença tentando imaginar como se é na Alemanha. Escolhendo anedotas específicas dentre as várias possíveis, a imagem que construo de lá é a de um lugar exótico onde tudo é diferente. Os pontos comuns como a gravidade, a inércia, o carboidrato, a gordura, o sal, o açúcar, os edulcorantes, a água potável, os seres humanos, os cachorros, a luz do sol, a chuva, os telefones celulares, os banheiros, os bancos, as mesas, as bicicletas assim como todo o resto não parecem atrair a atenção.
Às 21h de quarta-feira, pego uma amiga de carro para conversarmos sobre nossas vidas. Conversamos sobre nossas questões pessoais, sobre nossas perspectivas e planos, sobre nossos desejos e frustrações, sobre amores, sobre relacionamentos com colegas, amigos e familiares, sobre nossa personalidade muito similar e sobre como mudarmos o nosso futuro, que já parece um pouco traçado tanto para mim quanto para ela.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Da ordem perfeita para a província
Já no aeroporto, quando os primeiros brasileiros se aglomeravam na fila do check-in, senti um aperto no peito ao ouvir as socializações bem humoradas de cunho sexista - ainda bem que não tem tanto viado no Brasil, né - entre os passageiros. Respirei fundo, entrei no avião falando alemão - ne cola light, bitte - e tentei me divertir assistindo despistado e sozinho ao filme Mamma mia! Infelizmente, sofri o drama da menina que não sabia quem era o seu pai e não consegui imitar os deuses do filme que riam dos problemas banais das nossas vidas.
Ao chegar, tive a estranheza de me deparar com conceitos como pessoas simples, guardinhas, bárbaros, caráter animalesco, pensamento irracional, de ter de falar baixo sobre questões sociais para os empregados não ouvirem, de ouvir que fiquei dando bandeira na rua ao usar o telefone público e de perceber um modo como eu pensava anteriormente.
Hoje, para mim, duas obras de arte ganharam um sentido mais forte. A sensação que tenho ao vir para BH é idêntica àquela provocada pelas cenas finais do filme Jean Charles. Enquanto isso, a sensação de sair da Alemanha é – ainda hoje – muito similar ao alívio de escapar do vertiginoso jardim da ordem perfeita no museu dos judeus em Berlim. Por um lado alívio ao partir, por outro lado preguiça ao chegar.
Ao chegar, tive a estranheza de me deparar com conceitos como pessoas simples, guardinhas, bárbaros, caráter animalesco, pensamento irracional, de ter de falar baixo sobre questões sociais para os empregados não ouvirem, de ouvir que fiquei dando bandeira na rua ao usar o telefone público e de perceber um modo como eu pensava anteriormente.
domingo, 1 de novembro de 2009
Pedaço de Berlim em Zurique
Conheci um berlinense no albergue da juventude de Zurique, Johannes, um universitário de ciências naturais com um calor humano fantástico para alguém que mora tão ao norte. Ele adora Berlim e curte muito os cafés, bares, tavernas e clubes de Kreuzberg, Schönenberg e Prenzlauerberg, os meus favoritos.
Quando disse que nasci em uma cidade do mesmo tamanho que Berlim, mas muito tradicional e que gostava de Berlin porque lá não é uma cidade conservadora, ele disse no meio de uma risada: “Berlin ist nicht traditionell, Berlin ist wunderbar!” Ele tem razão, deve ser realmente maravilhoso morar em uma cidade como Berlim, onde ao meio dia se é mais assolto que à meia noite em BH quando os mais brutos estão dormindo. Lembrei-me do meu amigo Leo, que me visitou em Berlim. Ele fala tão bem de BH quanto Johannes de Berlim. =D
Direito de entrar desde que se vá embora
Temos o direito de entrar nos países desde que pretendamos ir embora. A fronteira é uma pressão psicológica educativa, um modo de informar a todas as pessoas que entram que elas não serão acolhidas e precisam ir embora o mais rápido possível. Contudo, como eu me tornei psicologicamente um nômade que experimenta os lugares a fim de encontrar um destino final, apresentei à fronteira uma passagem só de ida e sem uma reserva de hotel.
Fronteira
Para onde você vai?
Você estuda em Zurique?
Se eu não falasse um alemão fraco e não tivesse um visto americano, não teria entrado. Se eu, o nômade, tive a oportunidade de ficar na Alemanha ou nos EUA, por que eu escolheria morar em Zurique? Ao contrário dos países onde as pessoas pertencem ao estado e são obrigadas a voltar quando saem, nos países onde as pessoas são livres, o assentamento populacional é inverso. Nesse modelo, como a migração passa a ser muito grande devido ao êxodo provocado por alguns países, os destinos – e não as origens - obrigam pessoas de certas origens a irem embora.
Aonde você vai?
“Estou indo para Zurique.”
De onde você vem?
“Estou vindo de Saarbrücken.”
O que você vai fazer em Zurique?
“Vou passear. Tenho um amigo na cidade que conheci na Argentina.”
Polícia
O que você vai fazer em Zurique?
“Vou passear. Tenho um amigo na cidade que conheci na Argentina.”
De onde você vem?
“Nasci no Brasil, fui para Buenos Aires na Argentina e passei um mês lá, onde conheci o René que morava em Basel e agora mora em Zurique, fui para o Brasil e passei dois anos lá, então fui para Berlim, passei um mês lá, fui para Bremen, passei três dias lá, fui para Saarbrücken, passei três dias lá, estou indo para Zurique para encontrar o René e vou passar dois dias lá, depois vou para o Brasil passar oito meses lá e depois, se tudo der certo, vou para Bremen fazer um doutorado.”
Para onde você vai?
“Vou para Zurique passear com o René até segunda-feira, mas eu vou ficar dois dias em um albergue da juventude e não na cada dele. Na segunda-feira eu vou para o Brasil.”
Você estuda em Zurique?
“Não, eu quero fazer um doutorado no ano que vem em Bremen e não em Zurique. Vou para Zurique passear. Eu conheço um cara chamado René Maurer que mora em Zurique e vou lá para passear com ele.”
Se eu não falasse um alemão fraco e não tivesse um visto americano, não teria entrado. Se eu, o nômade, tive a oportunidade de ficar na Alemanha ou nos EUA, por que eu escolheria morar em Zurique? Ao contrário dos países onde as pessoas pertencem ao estado e são obrigadas a voltar quando saem, nos países onde as pessoas são livres, o assentamento populacional é inverso. Nesse modelo, como a migração passa a ser muito grande devido ao êxodo provocado por alguns países, os destinos – e não as origens - obrigam pessoas de certas origens a irem embora.
sábado, 31 de outubro de 2009
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Pacata Urbe
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Patinho Feio em Bremen
Pisei em Bremen, uma cidade pacata no norte da Alemanha, o destino sonhado pelos saltimbancos - que nunca chegaram de fato à cidade - e o meu destino provável no ano que vem. Logo que saí da estação, iniciei minha jornada errante pelo centro da cidade e estranhei o contraste entre as construções e o que se encontra dentro delas.À distância, a cidade parece uma relíquia de museu bem conservada. Contudo, quando olhamos pelas vitrines das construções centenárias, encontramos lojas de eletrônicos, fast-foods, bancas de periódicos e joalherias sofisticadas. A sensação é a de que nós nos instalamos dentro das edificações do Pergamon Museum e passamos a viver o nosso tempo presente dentro delas.


Hoje, particularmente, passei o dia na Universidade de Bremen com o professor Bateman e suas orientandas Nina e Desi. Visitei o instituto Cartesium - Ciências Naturais - e o andar de Linguística no prédio das Humanidades. Digo com toda a serenidade que curti cada momento que passei naqueles prédios silenciosos, cujas cantinas são menos ruidosas que a praça da Cidade Nova às três da manhã de terça-feira, conversando sobre minha intenção de me dedicar a pesquisas aplicadas em vez de assumir um trabalho executivo e sobre as possibilidades de pesquisa nesta instituição.
Não pude evitar a lembrança de um colega universitário zombar o meu pensamento extremamente cartesiano enquanto comentava com o professor sobre como o inglês e o alemão representam conceitos difíceis de se representar com coordenadas e formas geométricas e sobre a inviabilidade de controlar um robô usando conceitos somente linguísticos e sem um modelo físico adequado sobre o espaço físico. Eu ria por dentro vislumbrando que talvez um pensamento cartesiano não seja um atributo tão pejorativo por aqui. Talvez eu tenha encontrado, de alguma forma, o meu bando.
Dias cinzas
Fomos também às compras. Levamos litros de perfume da Kaufhof da Alexanderplatz – mais da metade a pedido de amigos – e aparelhos diversos da gigantesca loja de eletrônicos próxima ao Zoológico. Incrivelmente, o preço dos perfumes aqui é 1/5 do preço praticado no Brasil. Já à noite, frequentamos as tavernas e clubes da Berlim oriental, uma região bem menos opulenta, mas extremamente receptiva. Curtimos nossas noites nas tavernas das Oranienstraße e Warschauerstraße e depois nos dirigimos aos famosos clubes de música eletrônica. Todas as noites, depois de cogitarmos ou tentarmos em vão entrar no clube Barghain, nos dirigirmos a outro lugar menos hostil a turistas.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Encontros
Encontrei dois amigos do Brasil na Potsdamerplatz. Fomos assistir juntos ao filme Castelo Assombrado no cinema IMax e admirar as edificações mais modernas de Berlin. Quando a seção terminou, fizemos um breve turismo pela Motzstraße. Entramos na taverna Hafen para nos aquecermos antes de voltarmos para nossas acomodações e eu comprei uma coca-cola light como sempre.
Antes de eu conseguir me sentar com meus amigos, fui abordado por um berlinense bêbado que se interessou pelo fato de eu ser do Brasil, um ser humano guerreiro que sobreviveu o contato com os favelados [como se o Brasil fosse um Distrito 9]. Nós tivemos um diálogo bastante elementar que foi interrompido somente por um chilique idêntico aos da minha mãe quando um filhote de Basset Hound se aproximou de nós: Ich habe Angst vor Hunde! Beißt er? O garçom estava perto e me perguntou gargalhando se eu conseguia entender o que a figura estava falando. Respondi que sim como quem está acostumado com um xilique daquele. Ele duvidou e preferiu me explicar em inglês.
Antes de eu conseguir me sentar com meus amigos, fui abordado por um berlinense bêbado que se interessou pelo fato de eu ser do Brasil, um ser humano guerreiro que sobreviveu o contato com os favelados [como se o Brasil fosse um Distrito 9]. Nós tivemos um diálogo bastante elementar que foi interrompido somente por um chilique idêntico aos da minha mãe quando um filhote de Basset Hound se aproximou de nós: Ich habe Angst vor Hunde! Beißt er? O garçom estava perto e me perguntou gargalhando se eu conseguia entender o que a figura estava falando. Respondi que sim como quem está acostumado com um xilique daquele. Ele duvidou e preferiu me explicar em inglês.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
O Socialista
Comentei hoje com a Evelyn, um garota dos EUA, que no Brasil as lojas são obrigadas a fornecer uma garantia de alguns dias para produtos eletrônicos e ela demonstrou não admirar esse direito/dever. Disse que a não-intervenção dos EUA é melhor porque você tem a opção de comprar uma garantia se achar conveniente e não tem de pagar sempre a garantia embutida no preço do produto.
Anteontem, comentei com o /'marhĭus/ que, no Brasil, as terras não usadas para agricultura podem ser despropriadas e vendidas para quem tiver interesse de cultivá-las. Ele se horrorizou e disse que, se alguém possui uma terra, deveria poder fazer o que quisesse dela. Comentei então sobre o coronelismo e sobre a má divisão das terras no Brasil. Ele, novamente surpreso, disse que nesse caso não existe legitimidade em se herdar uma terra no Brasil.
Contudo, enquanto eles comentavam sobre os temas em que o estado não pode intervir, eu me perguntava: Existe vantagem em tornar as garantias facultativas? Existe herança legítima?
Comentário: A garantia vendida pela Apple na Alemanha inclui mau uso como deixar o computador cair na piscina ou do oitavo andar de um prédio - segundo os vendedores especializados em produtos da Apple da Kaufhof e da Saturn. No Brasil, a extensão de garantia vendida pela Apple inclui somente defeitos de fábrica e é considerado desclassificatório para obter a garantia qualquer arranhão na carcaça dos aparelhos. Em caso de haver arranhões durante o prazo de garantia obrigatória, o conserto ou a troca do aparelho só são obtidos com um processo judicial contra a empresa.
Anteontem, comentei com o /'marhĭus/ que, no Brasil, as terras não usadas para agricultura podem ser despropriadas e vendidas para quem tiver interesse de cultivá-las. Ele se horrorizou e disse que, se alguém possui uma terra, deveria poder fazer o que quisesse dela. Comentei então sobre o coronelismo e sobre a má divisão das terras no Brasil. Ele, novamente surpreso, disse que nesse caso não existe legitimidade em se herdar uma terra no Brasil.
Comentário: A garantia vendida pela Apple na Alemanha inclui mau uso como deixar o computador cair na piscina ou do oitavo andar de um prédio - segundo os vendedores especializados em produtos da Apple da Kaufhof e da Saturn. No Brasil, a extensão de garantia vendida pela Apple inclui somente defeitos de fábrica e é considerado desclassificatório para obter a garantia qualquer arranhão na carcaça dos aparelhos. Em caso de haver arranhões durante o prazo de garantia obrigatória, o conserto ou a troca do aparelho só são obtidos com um processo judicial contra a empresa.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Antissemitismo Latente
Andando pelo corredor da escola, onde só transitam estrangeiros, deparei-me com várias fotos de um garoto judeu vandalizadas em um mural. Em todas as fotos, os seus olhos estavam furados. Exaltei-me com o que vi, retirei as fotos do mural e entreguei na recepção. "O que você quer que eu faça com essas fotos?" - "Não podemos deixá-las lá!"Paradoxalmente, ao ter me considerado um agente histórico e, por isso, agido, eu percebi que eu me incluo no imenso grupo dos que por um lado defendemos os judeus do racismo e por outro sustentamos a aparência de que não existe racismo em Berlin contra eles. Contudo, o que mais me incomoda é o conhecimento de que existe um turista que veio a Berlim em busca de racismo: seja ele um judeu que se incomoda com a ausência de racismo no presente ou um antissemita que de fato quer ofender os judeus.
domingo, 18 de outubro de 2009
Observador Observado
/'marhĭus/: Você não bebe nada alcoólico. Não gosta de comida com gordura. Fala várias línguas. Admira arquitetura. Carrega um Macbook Air em uma bolsa de lona reciclada. E sempre anda com o cabelo arrumado.
Daniel: É. Hehehe. O que que tem isso?
/'marhĭus/: Nada. Acho apenas curioso. [pausa] Você assistiu ao filme Inglorious Bastards?
Daniel: Assisti. O que que tem o filme?
/'marhĭus/: O que você achou do personagem que identificava e matava os inimigos?
Daniel: Nada, por que?
/'marhĭus/: Eu achei ele muito afetado.
Daniel: É. Hehehe. O que que tem isso?
/'marhĭus/: Nada. Acho apenas curioso. [pausa] Você assistiu ao filme Inglorious Bastards?
Daniel: Assisti. O que que tem o filme?
/'marhĭus/: O que você achou do personagem que identificava e matava os inimigos?
Daniel: Nada, por que?
/'marhĭus/: Eu achei ele muito afetado.
sábado, 17 de outubro de 2009
Eleição Plebicitária
Ao ler Eleição Plebicitária, Consenso Nacional e Candidato Único numa mesma sequência de orações, eu levei um susto e resmunguei Scheiße! Se estivesse em BH, estaria neste exato momento organizando um protesto pacífico ohne Gewald contra um pensamento único e uma coesão nacional. Infelizmente, não se ensinava leitura crítica da história enquanto o Lula ainda estava no colégio.
Exposição de Herbert List
Fui ao Schwules Museum. Lá visitei a reconstituição do apartamento do político protestante Siegmar Piske denominada Es gibt Perlen, die findet keine Sau [tradução livre: certas pérolas os porcos não encontram], conheci a história alemã dos amores perseguidos e admirei a exposição Frauen und Jungs [tradução livre: Meninos e Meninas] com as pinturas e fotos de Herbert List.
Na exposição histórica sobre os amores perseguidos, vê-se a evolução da cultura alemã quanto aos tabus sexuais. Em resumo, os amores proibidos foram categorizados como doenças genético-contagiosas seguido pela sua criminalização na Alemanha no fim do século XVIII como ocorreu em todo o ocidente. Apesar disso, em Berlim surgiu uma sub-cultura em que os amores ilícitos eram vividos sem maiores problemas em ambientes privados. Como esperado, durante o Socialismo Nacional da Alemanha, os homossexuais foram perseguidos e levados a campos de concentração. – É muito intrigante imaginar que o Socialismo Nacional da Alemanha tenha conseguido invadir todas as esferas privadas e perseguir tantos ao mesmo tempo.
Depois, na década de 80 simultaneamente à desclassificação como doença, assim como no restante do mundo, os amores perseguidos foram mais uma vez classificados como doentios com a propaganda difamatória do Câncer Gay. Em paralelo a isso, a exposição mostra os registros desses amores e, indiretamente, o movimento político pela restauração dos direitos civis dos homossexuais que surgiu na Alemanha na década de 20 do século passado e que continua até o presente.Comentário: A exposição seria absolutamente ilegal no Brasil porque contém fotos artísticas, científicas e documentais com nudez e sexo entre menores de idade produzidas no começo do século passado e estátuas com nudez de menores de idade da Roma Antiga, da Grécia e da Idade Média (como anjos nus, por exemplo).
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Diz-me com quem tu andas
No mesmo dia, o /'marhĭus/ comentou também que, na Suécia, os jovens que estudam o mundo físico, a natureza e as técnicas - química e física; medicina, botânica e zoologia; engenharia, arquitetura e informática - se sentem superiores aos que estudam as interações humanas - linguística, sociologia, psicologia e direito. Orgulho do realismo por um lado e valorização de certas áreas por outro. Em cima disso, comecei a refletir sobre as minhas próprias escolhas e as escolhas dos meus primos, dos meus amigos, do /'marhĭus/ e seus conhecidos, dos garotos da suíça e dos meus vários conhecidos dos EUA e percebi o tanto que os ambientes por que passei me condicionaram, muito mais do que eu jamais consegui supor.
Adultos
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
não comer fora de casa
A parte cômica de se fotografar porções gigantes é que o nosso cérebro corrige o tamanho das porções e interpreta as fotos como se os objetos gigantes estivessem mais próximos da câmera do que as pessoas. Nós não conseguimos entender que, na foto, o rosto do /'marhĭus/ está acima da bacia de pipoca e que a largura da bacia é mais de duas vezes a do rosto dele e que a circunferência dos copos é mais de duas vezes a garra das mãos dele.
sábado, 10 de outubro de 2009
Oeste e Leste
Ontem fui a uma galeria de arte e entrei em uma manifestação artística pela desconstrução do conceito de fronteira e, consequentemente, de migração. O grande impacto está na óbvia constatação de que pessoas que se mudam de um lugar para outro não são imigrantes até que seja criada uma fronteira entre as duas regiões. A manifestação é tão bem feita que, ao sair de lá, passei a questionar-me sobre os limites entre os povos.
Conheci então /'ĭokob/, um computeiro que trabalha com Web 2.0 e é apaixonado com linguística computacional. Ele acabou o mestrado agora e está aprendendo alemão para procurar trabalho em Berlim. No país dele, atualmente, existe 15% de desemprego segundo os sindicatos e 10% de desemprego segundo o governo que inclui trabalho informal nos seus números quando convém. Ele participou, como ouvinte, de um movimento contra o controle da Internet em seu país e vibrou com o julgamento dos donos do Pirate Bay. Além disso, antes de vir para a Alemanha, ele tentou criar um projeto Open-Source, mas não conseguiu levar o projeto adiante. /'ĭokob/ é sueco e não brasileiro como eu. Contudo, somos quase idênticos.
Durante as aulas, aprendo um pouco sobre a história da Alemanha. Ainda faço confusão com as informações. O governo DRR (RDA em português) denominado "democrático" era uma autocracia e, apesar de dominar na época este bairro - onde fica a escola - ao leste do antigo muro, os professores dizem que "os ditadores" dominavam "lá" e não que "os nossos ditadores" dominavam "aqui". O leste longínquo, onde eles ficavam, foi levado para algum lugar entre o passado e o oriente além da próxima fronteira. Enquanto nós vivemos aqui, eles viviam no leste.
Fiquei muito incomodado quando percebi que todos os povos usam o termo "aqui" para determinar uma região geográfica delimitada por suas fronteiras políticas contemporâneas e não para determinar uma região física. Incomodamente, ao contrário do que se ouve na Alemanha, no Brasil e nos Estados Unidos, nós ocidentais vivemos em nosso território e lembramos dos povos que viviam no antigo oeste da fronteira e não no antigo leste do muro. Senti esse incômodo porque, pela primeira vez, percebi os limites oscilantes do nosso povo. Eu, que sempre me considerei no leste [da fronteira], percebo agora que estava no oeste [do povo] e que agora estou no leste [desse mesmo povo] ao oeste [da próxima fronteira].
Conheci então /'ĭokob/, um computeiro que trabalha com Web 2.0 e é apaixonado com linguística computacional. Ele acabou o mestrado agora e está aprendendo alemão para procurar trabalho em Berlim. No país dele, atualmente, existe 15% de desemprego segundo os sindicatos e 10% de desemprego segundo o governo que inclui trabalho informal nos seus números quando convém. Ele participou, como ouvinte, de um movimento contra o controle da Internet em seu país e vibrou com o julgamento dos donos do Pirate Bay. Além disso, antes de vir para a Alemanha, ele tentou criar um projeto Open-Source, mas não conseguiu levar o projeto adiante. /'ĭokob/ é sueco e não brasileiro como eu. Contudo, somos quase idênticos.
Durante as aulas, aprendo um pouco sobre a história da Alemanha. Ainda faço confusão com as informações. O governo DRR (RDA em português) denominado "democrático" era uma autocracia e, apesar de dominar na época este bairro - onde fica a escola - ao leste do antigo muro, os professores dizem que "os ditadores" dominavam "lá" e não que "os nossos ditadores" dominavam "aqui". O leste longínquo, onde eles ficavam, foi levado para algum lugar entre o passado e o oriente além da próxima fronteira. Enquanto nós vivemos aqui, eles viviam no leste.
Fiquei muito incomodado quando percebi que todos os povos usam o termo "aqui" para determinar uma região geográfica delimitada por suas fronteiras políticas contemporâneas e não para determinar uma região física. Incomodamente, ao contrário do que se ouve na Alemanha, no Brasil e nos Estados Unidos, nós ocidentais vivemos em nosso território e lembramos dos povos que viviam no antigo oeste da fronteira e não no antigo leste do muro. Senti esse incômodo porque, pela primeira vez, percebi os limites oscilantes do nosso povo. Eu, que sempre me considerei no leste [da fronteira], percebo agora que estava no oeste [do povo] e que agora estou no leste [desse mesmo povo] ao oeste [da próxima fronteira].
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Jantar e Show
Juntos descobrimos erros nas informações históricas do museu - eu armado com o latim e ele armado com sua memória excelente sobre a história nórdica e germânica - e tivemos o prazer intelectual de informar aos mantenedores do museu de história que suas placas precisavam ser corrigidas. Não é atoa que sind wir total toll!
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Dentro do Anarquismo
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Capitalismo Mata
sábado, 3 de outubro de 2009
Potsdamer Platz
Lembrei-me do filme Bauhaus: Modell und Mythos - que adorei, diga-se de passagem - e das ousadias inocentes dos jovens da Bauhaus no começo do século passado. Me fascinou saber que se preocuparam com a função dos produtos, que foram perseguidos por Hitler e que não conseguiram alcançar seus objetivos.
Lembrei-me também do museu com as fotografias de Helmut Newton que visitei na quinta-feira e de suas mulheres fortes e independentes que assumem sua sexualidade com mais força do que qualquer homem ousaria assumir.Fiquei imaginando como deve ser a percepção de mundo de um jovem nascido aqui, que teve a oportunidade de vivenciar experiências como estas desde cedo. Não é sem motivos que aqui se tornou uma cidade onde as pessoas se preocupam tanto com ecologia, valorizam tanto o design e ocupam papéis muito similares na sociedade independente de serem homens ou mulheres. A cidade cria todas as experiências necessárias para que isso aconteça.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Festa a noite inteira
Na quarta-feira à noite, fui a uma festa no apartamento do François. Estava ótimo! A gente dançava músicas de várias nações. Nós estávamos tão empolgado com as músicas que filmaram a mim e um menino do méxico dançando e colocaram o filme no Youtube! Pelo jeito, a menina - linda, loira e norueguesa - que me filmou adorou o meu jeito de dançar.
Nessa noite, consegui cumprimentar, fazer duas perguntas e um comentário com um sueco chamado /'bĭørn/, o qual até sorriu com o meu comentário de que o apelido de um amigo meu no Brasil é Bjorn. Conheci também outro sueco chamado /'marhĭus/ que nem parece ser de lá quando sorri e se interessa em interagir com pessoas de outras nações. Creio que depois de conhecer os dois, minha inibição justificada com suecos tenha sido amenizada.
Às 10 horas em ponto, a polícia chegou e, educadamente, solicitou ao François que a festa fosse interrompida naquele exato instante e que todos saíssem do apartamento em silêncio imediatamente. Dali fomos à boate Matrix que fica no sudeste de Berlin.
Poucos minutos depois que chegamos, quando já estávamos todos na pista de dança, gogoboys e gogogirls começaram a dançar em jaulas e plataformas e, sem exagero, nem mesmo no Rio de Janeiro os gogoboys e as gogogirls conseguem ser tão bizarros, agressivos, enérgicos e provocantes! Depois dessa explosão de hormônios, não era mais fisicamente possível ser exagerado quanto ao modo de dançar e a festa que já extravasava hormônios ficou ainda mais agressiva. Mas o clímax da noite ainda estava por vir. Quando tocou o refrão Hey das geht ab. Wir feiern die ganze Nacht [tradução livre: aqui vai explodir, a gente vai se acabar essa noite] e todos gritaram juntos com muita raiva dando socos para cima com a mão direita a cada compasso, a mensagem foi muito clara de que aqui se curte a vida enquanto houver energia.
Nessa noite, consegui cumprimentar, fazer duas perguntas e um comentário com um sueco chamado /'bĭørn/, o qual até sorriu com o meu comentário de que o apelido de um amigo meu no Brasil é Bjorn. Conheci também outro sueco chamado /'marhĭus/ que nem parece ser de lá quando sorri e se interessa em interagir com pessoas de outras nações. Creio que depois de conhecer os dois, minha inibição justificada com suecos tenha sido amenizada.
Às 10 horas em ponto, a polícia chegou e, educadamente, solicitou ao François que a festa fosse interrompida naquele exato instante e que todos saíssem do apartamento em silêncio imediatamente. Dali fomos à boate Matrix que fica no sudeste de Berlin.
Poucos minutos depois que chegamos, quando já estávamos todos na pista de dança, gogoboys e gogogirls começaram a dançar em jaulas e plataformas e, sem exagero, nem mesmo no Rio de Janeiro os gogoboys e as gogogirls conseguem ser tão bizarros, agressivos, enérgicos e provocantes! Depois dessa explosão de hormônios, não era mais fisicamente possível ser exagerado quanto ao modo de dançar e a festa que já extravasava hormônios ficou ainda mais agressiva. Mas o clímax da noite ainda estava por vir. Quando tocou o refrão Hey das geht ab. Wir feiern die ganze Nacht [tradução livre: aqui vai explodir, a gente vai se acabar essa noite] e todos gritaram juntos com muita raiva dando socos para cima com a mão direita a cada compasso, a mensagem foi muito clara de que aqui se curte a vida enquanto houver energia.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
O Discovery Chanel acabou com o desconhecido

Entrei no maior jardim zoológico do mundo, que fica no Meio de Berlim, imaginando as feras exóticas que iria encontrar lá dentro. Sem perceber, imaginei que a minha visita me devolveria a sensação que tive quando ganhei um livro sobre dinossauros muito antes do filme Jurassic Park, quando vi pela primeira vez um fóssil de um hornorinotério baiense, quando achei uma pedra sedimentar com uma costela de peixe dentro e quando vi morsas, veados e esquilos andando livres em Óregon nos EUA. Esperava o êxtase de descobrir um mundo absolutamente novo, porém a minha expectativa não podia estar mais errada. Tirando os ursos polares, os pinguins e uma panda concedida pelo partido único da China, o jardim zoológico de Berlim tem as mesmas atrações que os seus concorrentes com uma variedade um pouco maior de espécies.

A paisagem, no entanto, é linda. Várias vezes me peguei sonhando acordado, vendo ao vivo aquilo que só existia nos sonhos. Em especial, no fim da tarde, quando o sol já está baixo e escondido atrás das nuvens, tem-se uma visão linda em cima de uma ponte de madeira quando se vira em direção a um coreto com colunas coríntias na beira de um lago. A água reflete o céu e as árvores contornam o campo de visão. Ali fiquei por um bom tempo observando a beleza da paisagem com a minha mente absolutamente vazia.

Depois de admirar a beleza do paisagismo e de admirar a exposição de animais cercados e ilhados, fui à casa climatizada de exibição de felinos caçadores. Após todos os felinos, havia uma jaula climatizada com lêmures (não tenho certeza se eram lêmures). Me chamou a atenção um lêmur que estava ereto no topo de um rochedo observando o horizonte. Ele parecia contemplar a paisagem. Me veio uma dúvida se ele estava pensando em algo ou se estava somente admirando a beleza da paisagem sem maiores preocupações.
Depois dali, fui à casa de exibição de macacos. Logo que cheguei, observei um macaco enjaulado que parecia sentir tédio. Ele tinha um olhar parado e sua cabeça estava levemente apontada para o chão. Cheguei bem perto e comecei a observá-lo olho no olho. Ele abriu um certo sorrizo acompanhando o meu. Eu o observava enquanto ele me observava. Havia ali uma conexão.
Queria registrar aquele momento e saquei o meu celular para tirar uma foto dele olhando para mim. No instante que eu apontei a câmera, ele se entristeceu e ficou constrangido. Ele estava enjaulado e eu insensivelmente tentava tirar uma foto dele enquanto um objeto exibido e não de nós enquanto dois primatas que se tornavam amigos. Virou para o outro lado de vergonha enquanto eu tombava minha cabeça de arrependimento. Guardei a câmera e acenei um tchau para ele antes de ir embora com um sorriso envergonhado. Em resposta, ele me acenou um tchau bem rápido como quem aceita o pedido de desculpas com certo rancor.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Zoológico fica para depois
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Mala é peso. Motzstraße é sexo.
Pois bem, minha mala foi entregue na escola e tive o leve desprazer de levá-la para o apartamento de metrô. Quando digo "leve desprazer", entendam que nesta postagem serei ironicamente eufêmico. Carregar dezesseis quilos de roupas e livros por ruas de pedras, por escadas e no trem em movimento, segurando tudo o que comprei nos dois primeiros dias e levando uma bolsa de notebook repleta de panfletos dependurada no pescoço, não é uma experiência fisicamente tolerável. Que isso sirva de lição para a próxima viagem: não trazer mais de dez quilos contando com a bagagem de mão. Estou com o corpo ainda doendo 20 horas depois.
À noite, resolvi sair sozinho pela Motzstraße, uma rua calma e arborizada no centro de Berlin famosa por sua vida noturna e seus excessos. Um conhecido meu havia me falado muito de seus excessos e sugerido que eu não deixasse de passar por ela. Aceitei a dica e, como todo turista inocente de uma cidade tradicional e provinciana faria, resolvi entrar em todos os bares, cafés e casas noturnas da rua para saber como eram.
Lição aprendida: nunca entrar inocentemente em uma casa noturna que: 1) tenha cortina preta, 2) uma placa dizendo Raucherzone (permitido fumar), 3) Nur Männer (somente homens) e 4) 18 Jahre Alt (somente maiores). Esses quatro itens sempre ocorrem em conjunto e são usados para atrair clientes que procuram fazer sexo em público com outros clientes ou com garotos de programa.
Entrei em uma dessas casas, assustei-me e saí, provocando um riso sarcástico dos frequentadores... Devo ter sido mais um desavisado. No restante, a rua é calma e pouco iluminada. Nela se encontram vários sex-shops, cafés, bares e casas noturnas. É frequentada principalmente por punks, góticos e gays, mas também a frequentam turistas, garotos de programa e senhores em busca de programas.
Entrei em um bar e pedi uma coca-cola zero. O garçom olhou para mim assustado como se eu fosse um extraterrestre perdido na Motzstraße. Depois seu olhar passou a demonstrar certa pena de eu - um menino tão provinciano - estar ali. Acabada a coca-cola, voltei para o apartamento de metrô, pensando no que havia visto. De certa forma, entendi as pessoas que frequentam aquela rua e, apesar de ali ser a realização física de todos os desejos sexuais mais extremos dos seres humanos, sua existência me trouxe uma sensação inesperada de que liberdade de fato não existe. Nosso senso de auto-preservação é um limite muito mais forte do que qualquer regra imposta pela sociedade.
À noite, resolvi sair sozinho pela Motzstraße, uma rua calma e arborizada no centro de Berlin famosa por sua vida noturna e seus excessos. Um conhecido meu havia me falado muito de seus excessos e sugerido que eu não deixasse de passar por ela. Aceitei a dica e, como todo turista inocente de uma cidade tradicional e provinciana faria, resolvi entrar em todos os bares, cafés e casas noturnas da rua para saber como eram.
Lição aprendida: nunca entrar inocentemente em uma casa noturna que: 1) tenha cortina preta, 2) uma placa dizendo Raucherzone (permitido fumar), 3) Nur Männer (somente homens) e 4) 18 Jahre Alt (somente maiores). Esses quatro itens sempre ocorrem em conjunto e são usados para atrair clientes que procuram fazer sexo em público com outros clientes ou com garotos de programa.
Entrei em uma dessas casas, assustei-me e saí, provocando um riso sarcástico dos frequentadores... Devo ter sido mais um desavisado. No restante, a rua é calma e pouco iluminada. Nela se encontram vários sex-shops, cafés, bares e casas noturnas. É frequentada principalmente por punks, góticos e gays, mas também a frequentam turistas, garotos de programa e senhores em busca de programas.
Entrei em um bar e pedi uma coca-cola zero. O garçom olhou para mim assustado como se eu fosse um extraterrestre perdido na Motzstraße. Depois seu olhar passou a demonstrar certa pena de eu - um menino tão provinciano - estar ali. Acabada a coca-cola, voltei para o apartamento de metrô, pensando no que havia visto. De certa forma, entendi as pessoas que frequentam aquela rua e, apesar de ali ser a realização física de todos os desejos sexuais mais extremos dos seres humanos, sua existência me trouxe uma sensação inesperada de que liberdade de fato não existe. Nosso senso de auto-preservação é um limite muito mais forte do que qualquer regra imposta pela sociedade.
domingo, 27 de setembro de 2009
Memorial do Holocausto
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