sábado, 31 de outubro de 2009

Halloween em Saarbrücken

[escreverei quarta-feira]

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pacata Urbe

Bremen é uma cidade silenciosa. Até mesmo no parque de diversão da cidade no centro histórico não se ouve gritos de crianças nem metais rangendo. A decoração quase pitoresca dos estabelecimentos típicos e as cores com contrastes progressivos trazem uma sensação de que estamos em um circo há duzentos anos atrás.

No meio do parque, ouvi uma voz feminina exaltada que dizia "You bastard! I hate you!" como quem demonstra falsa inveja para contar ao seu amigo que considera uma conquista pessoal dele admirável. Todos identificaram a estrangeira e continuaram seus caminhos pacatamente. Eu, diferentemente dos outros, sorri para conter uma risada e segui o meu caminho.

Vi então uma árvore vermelha no meio de um rio cercada por árvores de folhas amarelas. Aproximei-me da água e senti um cheiro similar ao de ureia e achei que o cheiro estava vindo de mim. Fiquei feliz quando percebi que minha roupa estava estranhamente aromatizada à amaciante e cigarro e que o cheiro era proveniente da decomposição das folhas dessas árvores em contato com o rio, um cheiro incondizente com a beleza da paisagem.

Cruzei a ponte e me deparei com o ângulo mais lindo da cidade e possivelmente o mais lindo que eu já vi em plena região urbana, fora de parques, no meio da cidade. É simplesmente impressionante que essa paisagem tenha sido preservada contra a pressão imobiliária do crescimento urbano. Certos danos são irreversíveis.

Às 16:50, quando o sol já começava a se esconder no horizonte, andei pelas ruas comerciais da cidade, onde pedestres caminham vagarosamente, dividindo o espaço com bondes e bicicletas em perfeita organização. Os pedestres não batem a sola contra o chão, as bicicletas não ruem de ferrugem e o bonde passa lentamente sobre os trilhos e soa leve e frágil como um ovo rolando sobre uma pia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Patinho Feio em Bremen

Pisei em Bremen, uma cidade pacata no norte da Alemanha, o destino sonhado pelos saltimbancos - que nunca chegaram de fato à cidade - e o meu destino provável no ano que vem. Logo que saí da estação, iniciei minha jornada errante pelo centro da cidade e estranhei o contraste entre as construções e o que se encontra dentro delas.

À distância, a cidade parece uma relíquia de museu bem conservada. Contudo, quando olhamos pelas vitrines das construções centenárias, encontramos lojas de eletrônicos, fast-foods, bancas de periódicos e joalherias sofisticadas. A sensação é a de que nós nos instalamos dentro das edificações do Pergamon Museum e passamos a viver o nosso tempo presente dentro delas.

Hoje, particularmente, passei o dia na Universidade de Bremen com o professor Bateman e suas orientandas Nina e Desi. Visitei o instituto Cartesium - Ciências Naturais - e o andar de Linguística no prédio das Humanidades. Digo com toda a serenidade que curti cada momento que passei naqueles prédios silenciosos, cujas cantinas são menos ruidosas que a praça da Cidade Nova às três da manhã de terça-feira, conversando sobre minha intenção de me dedicar a pesquisas aplicadas em vez de assumir um trabalho executivo e sobre as possibilidades de pesquisa nesta instituição.

Não pude evitar a lembrança de um colega universitário zombar o meu pensamento extremamente cartesiano enquanto comentava com o professor sobre como o inglês e o alemão representam conceitos difíceis de se representar com coordenadas e formas geométricas e sobre a inviabilidade de controlar um robô usando conceitos somente linguísticos e sem um modelo físico adequado sobre o espaço físico. Eu ria por dentro vislumbrando que talvez um pensamento cartesiano não seja um atributo tão pejorativo por aqui. Talvez eu tenha encontrado, de alguma forma, o meu bando.

Dias cinzas

Curti meus últimos dias cinzas em Berlim sob uma nébula densa. A claridade tem durado menos de 9 horas e, por isso, comecei a dissociar sono de escuridão. Ou seja, tenho dormido apenas 9 horas, o que me deixa pelo menos 6 horas acordado na noite preta, o que não é de todo mal, porque a vida noturna começa bem cedo como seria desejável que fosse em qualquer parte do mundo.

Nesses dias, passeei com meus amigos pela cidade. Passamos várias vezes pelas lojas de produtos inverossímeis e pelos cafés confortáveis de Schöneberg próximos à Nollendorfplatz, um bairro boêmio mutilado durante o Socialismo Nacional que, depois de seis anos de opressão, ressurgiu como o bairro mais libertário do mundo. Em todo café, invariavelmente tomei minha coca-cola light, que, ao ser pedida no devido tom, não provocava mais sentimentos paternais nos garçons.

Fomos também às compras. Levamos litros de perfume da Kaufhof da Alexanderplatz – mais da metade a pedido de amigos – e aparelhos diversos da gigantesca loja de eletrônicos próxima ao Zoológico. Incrivelmente, o preço dos perfumes aqui é 1/5 do preço praticado no Brasil. Já à noite, frequentamos as tavernas e clubes da Berlim oriental, uma região bem menos opulenta, mas extremamente receptiva. Curtimos nossas noites nas tavernas das Oranienstraße e Warschauerstraße e depois nos dirigimos aos famosos clubes de música eletrônica. Todas as noites, depois de cogitarmos ou tentarmos em vão entrar no clube Barghain, nos dirigirmos a outro lugar menos hostil a turistas.

Sobretudo, comemos muito bem. Fizemos um turismo gastronômico implausível na cidade de gastronomia mais difamada na Europa depois de Londres: o lugar onde se come muito, mal. Entramos famintos várias vezes em restaurantes americanos como Burger King e McDonald's, mas, de última hora, não tivemos coragem de desmerecer a esse nível a comida local. Frequentamos então restaurantes mais adequados à espécie humana e nos deliciamos com comidas turcas, italianas, taiwanesas, italianas, asiáticas e italianas novamente. Tudo isso ao ar livre com aquecimento típico por tochas. Uma experiência de dar água na boca!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Encontros

Encontrei dois amigos do Brasil na Potsdamerplatz. Fomos assistir juntos ao filme Castelo Assombrado no cinema IMax e admirar as edificações mais modernas de Berlin. Quando a seção terminou, fizemos um breve turismo pela Motzstraße. Entramos na taverna Hafen para nos aquecermos antes de voltarmos para nossas acomodações e eu comprei uma coca-cola light como sempre.

Antes de eu conseguir me sentar com meus amigos, fui abordado por um berlinense bêbado que se interessou pelo fato de eu ser do Brasil, um ser humano guerreiro que sobreviveu o contato com os favelados [como se o Brasil fosse um Distrito 9]. Nós tivemos um diálogo bastante elementar que foi interrompido somente por um chilique idêntico aos da minha mãe quando um filhote de Basset Hound se aproximou de nós: Ich habe Angst vor Hunde! Beißt er? O garçom estava perto e me perguntou gargalhando se eu conseguia entender o que a figura estava falando. Respondi que sim como quem está acostumado com um xilique daquele. Ele duvidou e preferiu me explicar em inglês.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Socialista

Comentei hoje com a Evelyn, um garota dos EUA, que no Brasil as lojas são obrigadas a fornecer uma garantia de alguns dias para produtos eletrônicos e ela demonstrou não admirar esse direito/dever. Disse que a não-intervenção dos EUA é melhor porque você tem a opção de comprar uma garantia se achar conveniente e não tem de pagar sempre a garantia embutida no preço do produto.

Anteontem, comentei com o /'marhĭus/ que, no Brasil, as terras não usadas para agricultura podem ser despropriadas e vendidas para quem tiver interesse de cultivá-las. Ele se horrorizou e disse que, se alguém possui uma terra, deveria poder fazer o que quisesse dela. Comentei então sobre o coronelismo e sobre a má divisão das terras no Brasil. Ele, novamente surpreso, disse que nesse caso não existe legitimidade em se herdar uma terra no Brasil.

Contudo, enquanto eles comentavam sobre os temas em que o estado não pode intervir, eu me perguntava: Existe vantagem em tornar as garantias facultativas? Existe herança legítima?

Comentário: A garantia vendida pela Apple na Alemanha inclui mau uso como deixar o computador cair na piscina ou do oitavo andar de um prédio - segundo os vendedores especializados em produtos da Apple da Kaufhof e da Saturn. No Brasil, a extensão de garantia vendida pela Apple inclui somente defeitos de fábrica e é considerado desclassificatório para obter a garantia qualquer arranhão na carcaça dos aparelhos. Em caso de haver arranhões durante o prazo de garantia obrigatória, o conserto ou a troca do aparelho só são obtidos com um processo judicial contra a empresa.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Antissemitismo Latente

Andando pelo corredor da escola, onde só transitam estrangeiros, deparei-me com várias fotos de um garoto judeu vandalizadas em um mural. Em todas as fotos, os seus olhos estavam furados. Exaltei-me com o que vi, retirei as fotos do mural e entreguei na recepção. "O que você quer que eu faça com essas fotos?" - "Não podemos deixá-las lá!"

Paradoxalmente, ao ter me considerado um agente histórico e, por isso, agido, eu percebi que eu me incluo no imenso grupo dos que por um lado defendemos os judeus do racismo e por outro sustentamos a aparência de que não existe racismo em Berlin contra eles. Contudo, o que mais me incomoda é o conhecimento de que existe um turista que veio a Berlim em busca de racismo: seja ele um judeu que se incomoda com a ausência de racismo no presente ou um antissemita que de fato quer ofender os judeus.

domingo, 18 de outubro de 2009

Observador Observado

/'marhĭus/: Você não bebe nada alcoólico. Não gosta de comida com gordura. Fala várias línguas. Admira arquitetura. Carrega um Macbook Air em uma bolsa de lona reciclada. E sempre anda com o cabelo arrumado.

Daniel: É. Hehehe. O que que tem isso?

/'marhĭus/: Nada. Acho apenas curioso. [pausa] Você assistiu ao filme Inglorious Bastards?

Daniel: Assisti. O que que tem o filme?

/'marhĭus/: O que você achou do personagem que identificava e matava os inimigos?

Daniel: Nada, por que?

/'marhĭus/: Eu achei ele muito afetado.

sábado, 17 de outubro de 2009

Eleição Plebicitária

Ao ler Eleição Plebicitária, Consenso Nacional e Candidato Único numa mesma sequência de orações, eu levei um susto e resmunguei Scheiße! Se estivesse em BH, estaria neste exato momento organizando um protesto pacífico ohne Gewald contra um pensamento único e uma coesão nacional. Infelizmente, não se ensinava leitura crítica da história enquanto o Lula ainda estava no colégio.

Exposição de Herbert List

Fui ao Schwules Museum. Lá visitei a reconstituição do apartamento do político protestante Siegmar Piske denominada Es gibt Perlen, die findet keine Sau [tradução livre: certas pérolas os porcos não encontram], conheci a história alemã dos amores perseguidos e admirei a exposição Frauen und Jungs [tradução livre: Meninos e Meninas] com as pinturas e fotos de Herbert List.

Na exposição histórica sobre os amores perseguidos, vê-se a evolução da cultura alemã quanto aos tabus sexuais. Em resumo, os amores proibidos foram categorizados como doenças genético-contagiosas seguido pela sua criminalização na Alemanha no fim do século XVIII como ocorreu em todo o ocidente. Apesar disso, em Berlim surgiu uma sub-cultura em que os amores ilícitos eram vividos sem maiores problemas em ambientes privados. Como esperado, durante o Socialismo Nacional da Alemanha, os homossexuais foram perseguidos e levados a campos de concentração. – É muito intrigante imaginar que o Socialismo Nacional da Alemanha tenha conseguido invadir todas as esferas privadas e perseguir tantos ao mesmo tempo.

Depois, na década de 80 simultaneamente à desclassificação como doença, assim como no restante do mundo, os amores perseguidos foram mais uma vez classificados como doentios com a propaganda difamatória do Câncer Gay. Em paralelo a isso, a exposição mostra os registros desses amores e, indiretamente, o movimento político pela restauração dos direitos civis dos homossexuais que surgiu na Alemanha na década de 20 do século passado e que continua até o presente.

Comentário: A exposição seria absolutamente ilegal no Brasil porque contém fotos artísticas, científicas e documentais com nudez e sexo entre menores de idade produzidas no começo do século passado e estátuas com nudez de menores de idade da Roma Antiga, da Grécia e da Idade Média (como anjos nus, por exemplo).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Diz-me com quem tu andas

Ao passear pelo museu Pergamon, consolidei a consciência de que tudo, absolutamente tudo o que construímos, por mais grandioso que seja, se transforma em ruína com o tempo. Como todo o meu contato imagético com o mundo antigo se passou no cinema, o meu cérebro interpretava aquilo como se eu estivesse imerso não em ruínas, mas sim em um cenário de um filme. Eu precisava repetir para mim mesmo constantemente que aquelas construções foram um dia as ruas, o espaço urbano de um povo que existiu de fato para manter a consciência de que ali viveram pessoas com suas rotinas atribuladas cheias de afazeres e não atores interpretando seus papéis de modo convincente para uma plateia. Ali viveram pessoas que não estavam ali para serem vistas, que viviam suas vidas, que conviviam com seus amigos e que negociavam mercadorias no espaço público.

Foi interessante andar pela exposição, cujo tema eram os deuses esquecidos, no mesmo dia em que minha colega Evelyn dos EUA se estressou com a ideia que o Alix - da Suíça - teve de interpretar a venda de pedaços da ossada de Jesus para fins mágicos. "Mas esses são os ossos de Jesus! Você não pode associar isso com ser sexy!" reclamou Evelyn. As pazes foram feitas quando trocamos o nome "Jesus" por "Bob Marley", mas na nossa interpretação Bob Marley era um deus.

Fiquei refletindo sobre o comentário orgulhoso do /marhĭus/ sobre a Suécia ser hoje majoritariamente ateia. Somente 30% da população é cristã. Contudo, quando ele me contou há alguns dias quem acreditava e quem não acreditava no deus cristão ou em um deus único ou em uma energia (element em sueco) dentro da sua família, ele não parecia descrever a família dele, mas sim a minha. A única diferença entre a família dele e a minha não está na crença, mas sim no tanto que se é orgulhoso sobre sua religiosidade, misticismo ou realismo.

No mesmo dia, o /'marhĭus/ comentou também que, na Suécia, os jovens que estudam o mundo físico, a natureza e as técnicas - química e física; medicina, botânica e zoologia; engenharia, arquitetura e informática - se sentem superiores aos que estudam as interações humanas - linguística, sociologia, psicologia e direito. Orgulho do realismo por um lado e valorização de certas áreas por outro. Em cima disso, comecei a refletir sobre as minhas próprias escolhas e as escolhas dos meus primos, dos meus amigos, do /'marhĭus/ e seus conhecidos, dos garotos da suíça e dos meus vários conhecidos dos EUA e percebi o tanto que os ambientes por que passei me condicionaram, muito mais do que eu jamais consegui supor.

Adultos

Na primeira semana em que estive aqui, a festa dançante no apartamento de um colega foi pontualmente encerrada por policiais. Na segunda semana, a reunião pacífica no pátio da escola foi pontualmente encerrada pelo zelador da escola. Na terceira semana, a farra alegre no meu apartamento foi pontualmente encerrada por mim. Expliquei emotivamente aos promotores da farra que não é uma função de um convidado terminar a festa, mas somente ao enfatizar que "essa não era a minha função" é que eu fui perceber que ali eu não era um convidado e sim o adulto.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

não comer fora de casa

Como os dias têm sido chuvosos e o frio impede passeios ao ar livre, tenho frequentado ambientes como tavernas, bares, restaurantes e cinemas. Ontem, por exemplo, comi um Kebab no mercado de pulgas do Mauerpark com a Talia perto da escola. Senti-me culpado a cada mordida que dava na massa frita com recheio de bacon ao molho de curry. Contudo, justifiquei para mim mesmo com o frio a ingestão excessiva de gordura e fui até o fim. Depois que acabei de comer aquilo, apesar de a paisagem ser linda e o mercado muito interessante, não consegui ficar lá por muito tempo.

Chegando do mercado, /'marhĭus/ Markus acordou da festa que aconteceu no meu apartamento e das baladas no Fritzklub e na Panorama e me ligou para passearmos.

Fomos jantar em um excelente sushibar que fica no metrô da Potsdamerplatz. Pedimos porções gigantes de sushi porque não havia menores e cada um de nós tomou um refrigerante.

Depois dessa farra gastronômica, fomos ao cinema da Potsdamerplatz assistir ao filme Distrito 9 - surpreendentemente excelente - e resolvemos pedir pipoca e coca-cola. Como nós não conseguimos decidir conjuntamente por refrigerante com ou sem açúcar e o menor copo era de 1,2 litros, pedimos dois copos pequenos de 1,2 litros e uma pipoca pequena que se pode ver na foto.

A parte cômica de se fotografar porções gigantes é que o nosso cérebro corrige o tamanho das porções e interpreta as fotos como se os objetos gigantes estivessem mais próximos da câmera do que as pessoas. Nós não conseguimos entender que, na foto, o rosto do /'marhĭus/ está acima da bacia de pipoca e que a largura da bacia é mais de duas vezes a do rosto dele e que a circunferência dos copos é mais de duas vezes a garra das mãos dele.

sábado, 10 de outubro de 2009

Oeste e Leste

Ontem fui a uma galeria de arte e entrei em uma manifestação artística pela desconstrução do conceito de fronteira e, consequentemente, de migração. O grande impacto está na óbvia constatação de que pessoas que se mudam de um lugar para outro não são imigrantes até que seja criada uma fronteira entre as duas regiões. A manifestação é tão bem feita que, ao sair de lá, passei a questionar-me sobre os limites entre os povos.

Conheci então /'ĭokob/, um computeiro que trabalha com Web 2.0 e é apaixonado com linguística computacional. Ele acabou o mestrado agora e está aprendendo alemão para procurar trabalho em Berlim. No país dele, atualmente, existe 15% de desemprego segundo os sindicatos e 10% de desemprego segundo o governo que inclui trabalho informal nos seus números quando convém. Ele participou, como ouvinte, de um movimento contra o controle da Internet em seu país e vibrou com o julgamento dos donos do Pirate Bay. Além disso, antes de vir para a Alemanha, ele tentou criar um projeto Open-Source, mas não conseguiu levar o projeto adiante. /'ĭokob/ é sueco e não brasileiro como eu. Contudo, somos quase idênticos.

Durante as aulas, aprendo um pouco sobre a história da Alemanha. Ainda faço confusão com as informações. O governo DRR (RDA em português) denominado "democrático" era uma autocracia e, apesar de dominar na época este bairro - onde fica a escola - ao leste do antigo muro, os professores dizem que "os ditadores" dominavam "lá" e não que "os nossos ditadores" dominavam "aqui". O leste longínquo, onde eles ficavam, foi levado para algum lugar entre o passado e o oriente além da próxima fronteira. Enquanto nós vivemos aqui, eles viviam no leste.

Fiquei muito incomodado quando percebi que todos os povos usam o termo "aqui" para determinar uma região geográfica delimitada por suas fronteiras políticas contemporâneas e não para determinar uma região física. Incomodamente, ao contrário do que se ouve na Alemanha, no Brasil e nos Estados Unidos, nós ocidentais vivemos em nosso território e lembramos dos povos que viviam no antigo oeste da fronteira e não no antigo leste do muro. Senti esse incômodo porque, pela primeira vez, percebi os limites oscilantes do nosso povo. Eu, que sempre me considerei no leste [da fronteira], percebo agora que estava no oeste [do povo] e que agora estou no leste [desse mesmo povo] ao oeste [da próxima fronteira].

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Jantar e Show

Anteontem fizemos um jantar no apartamento marcado para terminar às 10 horas - antes de a polícia ser chamada. O meu colega de apartamento Marco, italiano e suíço francófono, preparou pizzas para os convidados, um grupo composto exclusivamente de francófonos.

Oulala, je suis francophone aussi! Je peux comprendre quand ils parlent! Contudo, toda vez que me perguntavam algo em francês, eu respondia em alemão com sotac froncé. Talvez tenha sido por isso que, sem perceber, fui adotado pela turma... hehehe

Ontem, meu programa foi bastante inusitado. Fui ao museu privado de história alemã com o /marhĭus/ Markus e tive a melhor tarde desde que cheguei aqui.

Juntos descobrimos erros nas informações históricas do museu - eu armado com o latim e ele armado com sua memória excelente sobre a história nórdica e germânica - e tivemos o prazer intelectual de informar aos mantenedores do museu de história que suas placas precisavam ser corrigidas. Não é atoa que sind wir total toll!

Quando o museu fechou, fomos jantar em um restaurante chinês e, depois, entramos na Galeria Kaufhof para comprar um travesseiro na esperança de que um travesseiro melhor viesse a melhorar o torcicolo que me acompanha desde o dia em que carreguei a mala da escola até o apartamento. Desdenhamos dos travesseiros imprestáveis daqui. Gigantes e murchos! Horríveis! Chamamos uma vendedora para nos ajudar e ela nos ofereceu vários travesseiros de péssima qualidade. Quando expliquei que precisava de um travesseiro não tão ruim quanto aqueles porque eu estava com torcicolo, ela teve a breve lucidez - ach so! - de que queríamos algo de uma mínima qualidade no quesito de preservar a saúde e nos ofereceu um produto minimamente aceitável.

Saímos de lá com um travesseiro nos braços e fomos direto ao show da banda Câmera Obscura em uma boate subterrânea em frente à Ostbahnhof. Iniciamos a noite ao som inesperado de uma banda inglesa de um homem só que grava o som de sua voz e de seus instrumentos para em seguida os remixar ao vivo com outro som produzido na hora de modo a criar uma mistura constante entre sons eletrônicos gravados com o som de um novo instrumento. É simplesmente fantástico!

Depois de curtirmos juntos momentos inesquecíveis, /'marhĭus/ se despediu de mim dizendo que foi um prazer ter passado aquele dia comigo usando um adjetivo sueco que ele não soube traduzir e abrindo um sorriso no rosto. Bem, acho que se ainda havia algum resto de timidez de minha parte com pessoas criadas na Suécia, ela se acabou ali.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dentro do Anarquismo

Depois de assistir ao filme M na escola, fui com amigos a um bar no sexto andar de um prédio dominado por anarquistas desde a queda do muro de Berlim. Lá de cima se tem uma vista fantástica da cidade e se pode ouvir uma música confortável com amigos em sofás antigos ruídos pelo tempo. É um ambiente tranquilo e a música, como em todos os lugares daqui, fica em uma altura boa para que se possa conversar sem perder a voz. Vários grupos fumavam seus cigarros e beques enquanto eu tomava minha água mineral gasosa e admirava a vista.

Em um determinado momento inesquecível, um garoto magrinho da Suíça chamado Alix me fascinava con sô alomẽ con sotac froncé, enquanto um belorizontino ensinava os gestos obscenos do português ao nosso grupo e um escritor de ficção inglês contava sobre sua nova vida em Berlim. A paisagem era linda. Simplesmente inesquecível!

Quando somente eu e Alix restávamos no bar e já era hora de irmos embora, descemos as escadas do prédio e encontramos um anarquista limpando a escadaria. Nós colocamos algumas moedas na garrafa Pet de doações ao seu lado e ele, muito educadamente, nos perguntou em alto alemão se nós falávamos inglês. Fizemos que sim e ele agradeceu em inglês britânico: "desculpem-me se eu de alguma forma conturbei a noite de vocês ou se os deixei preocupados comigo. a doação de vocês servirá para eu continuar a manter este lugar." Percebendo que o sotaque Francês do Alix, despediu-se em um francês claríssimo "passem bem! até mais!"

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Capitalismo Mata

Alguns prédios de Berlim são dominados por grupos anarquistas. É fácil identificá-los. São tipicamente arruinados e a maioria deles se concentra na antiga Berlim Oriental. Passo todos os dias por um entre o metrô e a escola e não canso de observá-lo. Me intriga profundamente a mistura entre determinação política para protestar e desunião para fazer algo em conjunto, o que é observável desde a faixada dos prédios até o fato de os anarquistas sempre andarem sozinhos. Antes de conhecer o anarquismo de perto, acreditava ser anarquista. Agora... não tenho nenhuma ideologia.

sábado, 3 de outubro de 2009

Potsdamer Platz

Ontem fui assistir ao filme Under the Sea no cinema IMAX 3D de Berlin na Potsdamer Platz. Foi uma experiência tecnológica e biológica fascinante. Reconheço que é impossível sair desse filme sem se tornar um defensor feroz da preservação dos ecossistemas a qualquer custo.

Lembrei-me do filme Bauhaus: Modell und Mythos - que adorei, diga-se de passagem - e das ousadias inocentes dos jovens da Bauhaus no começo do século passado. Me fascinou saber que se preocuparam com a função dos produtos, que foram perseguidos por Hitler e que não conseguiram alcançar seus objetivos.

Lembrei-me também do museu com as fotografias de Helmut Newton que visitei na quinta-feira e de suas mulheres fortes e independentes que assumem sua sexualidade com mais força do que qualquer homem ousaria assumir.

Fiquei imaginando como deve ser a percepção de mundo de um jovem nascido aqui, que teve a oportunidade de vivenciar experiências como estas desde cedo. Não é sem motivos que aqui se tornou uma cidade onde as pessoas se preocupam tanto com ecologia, valorizam tanto o design e ocupam papéis muito similares na sociedade independente de serem homens ou mulheres. A cidade cria todas as experiências necessárias para que isso aconteça.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Festa a noite inteira

Na quarta-feira à noite, fui a uma festa no apartamento do François. Estava ótimo! A gente dançava músicas de várias nações. Nós estávamos tão empolgado com as músicas que filmaram a mim e um menino do méxico dançando e colocaram o filme no Youtube! Pelo jeito, a menina - linda, loira e norueguesa - que me filmou adorou o meu jeito de dançar.

Nessa noite, consegui cumprimentar, fazer duas perguntas e um comentário com um sueco chamado /'bĭørn/, o qual até sorriu com o meu comentário de que o apelido de um amigo meu no Brasil é Bjorn. Conheci também outro sueco chamado /'marhĭus/ que nem parece ser de lá quando sorri e se interessa em interagir com pessoas de outras nações. Creio que depois de conhecer os dois, minha inibição justificada com suecos tenha sido amenizada.

Às 10 horas em ponto, a polícia chegou e, educadamente, solicitou ao François que a festa fosse interrompida naquele exato instante e que todos saíssem do apartamento em silêncio imediatamente. Dali fomos à boate Matrix que fica no sudeste de Berlin.

Poucos minutos depois que chegamos, quando já estávamos todos na pista de dança, gogoboys e gogogirls começaram a dançar em jaulas e plataformas e, sem exagero, nem mesmo no Rio de Janeiro os gogoboys e as gogogirls conseguem ser tão bizarros, agressivos, enérgicos e provocantes! Depois dessa explosão de hormônios, não era mais fisicamente possível ser exagerado quanto ao modo de dançar e a festa que já extravasava hormônios ficou ainda mais agressiva. Mas o clímax da noite ainda estava por vir. Quando tocou o refrão Hey das geht ab. Wir feiern die ganze Nacht [tradução livre: aqui vai explodir, a gente vai se acabar essa noite] e todos gritaram juntos com muita raiva dando socos para cima com a mão direita a cada compasso, a mensagem foi muito clara de que aqui se curte a vida enquanto houver energia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Discovery Chanel acabou com o desconhecido


Entrei no maior jardim zoológico do mundo, que fica no Meio de Berlim, imaginando as feras exóticas que iria encontrar lá dentro. Sem perceber, imaginei que a minha visita me devolveria a sensação que tive quando ganhei um livro sobre dinossauros muito antes do filme Jurassic Park, quando vi pela primeira vez um fóssil de um hornorinotério baiense, quando achei uma pedra sedimentar com uma costela de peixe dentro e quando vi morsas, veados e esquilos andando livres em Óregon nos EUA. Esperava o êxtase de descobrir um mundo absolutamente novo, porém a minha expectativa não podia estar mais errada. Tirando os ursos polares, os pinguins e uma panda concedida pelo partido único da China, o jardim zoológico de Berlim tem as mesmas atrações que os seus concorrentes com uma variedade um pouco maior de espécies.

A paisagem, no entanto, é linda. Várias vezes me peguei sonhando acordado, vendo ao vivo aquilo que só existia nos sonhos. Em especial, no fim da tarde, quando o sol já está baixo e escondido atrás das nuvens, tem-se uma visão linda em cima de uma ponte de madeira quando se vira em direção a um coreto com colunas coríntias na beira de um lago. A água reflete o céu e as árvores contornam o campo de visão. Ali fiquei por um bom tempo observando a beleza da paisagem com a minha mente absolutamente vazia.

Depois de admirar a beleza do paisagismo e de admirar a exposição de animais cercados e ilhados, fui à casa climatizada de exibição de felinos caçadores. Após todos os felinos, havia uma jaula climatizada com lêmures (não tenho certeza se eram lêmures). Me chamou a atenção um lêmur que estava ereto no topo de um rochedo observando o horizonte. Ele parecia contemplar a paisagem. Me veio uma dúvida se ele estava pensando em algo ou se estava somente admirando a beleza da paisagem sem maiores preocupações.

Depois dali, fui à casa de exibição de macacos. Logo que cheguei, observei um macaco enjaulado que parecia sentir tédio. Ele tinha um olhar parado e sua cabeça estava levemente apontada para o chão. Cheguei bem perto e comecei a observá-lo olho no olho. Ele abriu um certo sorrizo acompanhando o meu. Eu o observava enquanto ele me observava. Havia ali uma conexão.

Queria registrar aquele momento e saquei o meu celular para tirar uma foto dele olhando para mim. No instante que eu apontei a câmera, ele se entristeceu e ficou constrangido. Ele estava enjaulado e eu insensivelmente tentava tirar uma foto dele enquanto um objeto exibido e não de nós enquanto dois primatas que se tornavam amigos. Virou para o outro lado de vergonha enquanto eu tombava minha cabeça de arrependimento. Guardei a câmera e acenei um tchau para ele antes de ir embora com um sorriso envergonhado. Em resposta, ele me acenou um tchau bem rápido como quem aceita o pedido de desculpas com certo rancor.