sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Diz-me com quem tu andas

Ao passear pelo museu Pergamon, consolidei a consciência de que tudo, absolutamente tudo o que construímos, por mais grandioso que seja, se transforma em ruína com o tempo. Como todo o meu contato imagético com o mundo antigo se passou no cinema, o meu cérebro interpretava aquilo como se eu estivesse imerso não em ruínas, mas sim em um cenário de um filme. Eu precisava repetir para mim mesmo constantemente que aquelas construções foram um dia as ruas, o espaço urbano de um povo que existiu de fato para manter a consciência de que ali viveram pessoas com suas rotinas atribuladas cheias de afazeres e não atores interpretando seus papéis de modo convincente para uma plateia. Ali viveram pessoas que não estavam ali para serem vistas, que viviam suas vidas, que conviviam com seus amigos e que negociavam mercadorias no espaço público.

Foi interessante andar pela exposição, cujo tema eram os deuses esquecidos, no mesmo dia em que minha colega Evelyn dos EUA se estressou com a ideia que o Alix - da Suíça - teve de interpretar a venda de pedaços da ossada de Jesus para fins mágicos. "Mas esses são os ossos de Jesus! Você não pode associar isso com ser sexy!" reclamou Evelyn. As pazes foram feitas quando trocamos o nome "Jesus" por "Bob Marley", mas na nossa interpretação Bob Marley era um deus.

Fiquei refletindo sobre o comentário orgulhoso do /marhĭus/ sobre a Suécia ser hoje majoritariamente ateia. Somente 30% da população é cristã. Contudo, quando ele me contou há alguns dias quem acreditava e quem não acreditava no deus cristão ou em um deus único ou em uma energia (element em sueco) dentro da sua família, ele não parecia descrever a família dele, mas sim a minha. A única diferença entre a família dele e a minha não está na crença, mas sim no tanto que se é orgulhoso sobre sua religiosidade, misticismo ou realismo.

No mesmo dia, o /'marhĭus/ comentou também que, na Suécia, os jovens que estudam o mundo físico, a natureza e as técnicas - química e física; medicina, botânica e zoologia; engenharia, arquitetura e informática - se sentem superiores aos que estudam as interações humanas - linguística, sociologia, psicologia e direito. Orgulho do realismo por um lado e valorização de certas áreas por outro. Em cima disso, comecei a refletir sobre as minhas próprias escolhas e as escolhas dos meus primos, dos meus amigos, do /'marhĭus/ e seus conhecidos, dos garotos da suíça e dos meus vários conhecidos dos EUA e percebi o tanto que os ambientes por que passei me condicionaram, muito mais do que eu jamais consegui supor.

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