Nick está aprendendo português brasileiro porque quer conversar com os meus pais quando eles vierem me visitar e vem usando dicionários e tradutores automáticos para desvendar os mistérios da língua falada e escrita no Brasil. Tudo fluía bem até que foram encontradas pequenas mensagens deixadas em presentes como "p/ Daniel, para você lembrar que eu te amo! do seu amigo, Bruno." e "para você lembrar da sua amiga que te ama muito, Fernanda." ou no Facebook como "sonhei ontem a noite com você! não some!" e "não se esquece de mim, saudade!".
Amor e Saudade no Brasil
Com a ajuda do Google Translate, Nick traduziu "p/ Daniel, para você lembrar que eu te amo! do seu amigo, Bruno" por "Daniel, erinnere daran, dass ich dich liebe! Dein Freund, Bruno" (Daniel, lembre-se de que eu te quero só para mim! do seu namorado, Bruno) e levou, claro, um susto. Em seguida, traduziu "sonhei ontem a noite com você! não some!" como "Ich habe gestern Abend von dir geträumt! Verschwinde nicht!" (eu tive sonhos eróticos com você ontem a noite! não me abandone!), "saudade!" por "ich vermisse dich" (a casa está vazia sem você).
Daniel: Nick, "amar" em português não é "lieben". "Amar" significa que a relação é forte e sem fim. É um atributo de uma relação e não um tipo. O tipo de relação está na palavra "amigo" que não é "Freund" (namorado) e sim "Kumpel" (amigo).
Nick: Isso não existe em alemão. Aqui é tudo muito claro. "Ich libe dich" significa "eu sou seu namorado" e "ich habe dich lieb" significa "eu sou seu amigo". "Freund" (namorado) sou só eu e "Freunde" (amigos) é o plural de "Kumpel" (amigo).
Daniel: É, em português, "amar" não é uma categoria de relação e sim a intensidade e a duração.
Nick: Vai ser difícil aprender a sua língua. Bem que me avisaram que os sulistas não gostam de classificar as relações e não querem compromisso. Você não vai me fazer sofrer, vai? Como é que se fala que alguém só tem um parceiro em português?
Daniel: Monogâmico. Mo-no-gâ-mi-co.
Nick: Mo-no-gâ-mi-co? Você vai ser monogâmico?
Daniel: Claro!
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Decisão Egoísta
Acabo de tomar uma decisão egoísta. Independente do que ocorrer na minha carreira daqui para frente, não tenho intenção de voltar para o Brasil. Vou preferir trabalhar no Vale do Silício, na Alemanha, na Austrália, no Japão, no Canadá, onde quer que me queiram e que eu não sinta risco de ser agredido fisicamente por ter bens nem prejudicado por critérios bestas.
A cada dia que passa, a ausência de violência e riscos que vivencio aqui me deixa mais indisposto e desanimado com o Brasil. Mas, na verdade, a minha decisão tem como ponto principal outra questão: o fato de que eu me sinto tratado de igual para igual pela primeira vez na minha vida. Eu sou mais um na multidão, estou vivendo a minha vida e estou feliz. E isso é o que importa, não é? Sinto falta da minha família, dos meus amigos de anos, mas assim que eu tiver me estabelecido em algum lugar, eu faço uma visita.
E a vida é longa, cheia de reviravoltas, quem sabe um dia...
A cada dia que passa, a ausência de violência e riscos que vivencio aqui me deixa mais indisposto e desanimado com o Brasil. Mas, na verdade, a minha decisão tem como ponto principal outra questão: o fato de que eu me sinto tratado de igual para igual pela primeira vez na minha vida. Eu sou mais um na multidão, estou vivendo a minha vida e estou feliz. E isso é o que importa, não é? Sinto falta da minha família, dos meus amigos de anos, mas assim que eu tiver me estabelecido em algum lugar, eu faço uma visita.
E a vida é longa, cheia de reviravoltas, quem sabe um dia...
sábado, 16 de junho de 2012
Impulsividade para Iniciantes
Ultimamente, venho lendo reportagens em jornais e revistas ao redor do mundo com citações de Sêneca proferidas por opositores do aborto. A ideia vendida é a de que Sêneca, não-cristãos e defensores do aborto de fetos sem cérebro querem executar uma eugenia ou um melhoramento da espécie humana por meio de assassinatos. Como me pareceu improvável que Sêneca tivesse defendido a eliminação dos mais fracos como os nazistas e fascistas fizeram, fui à fonte para entender o argumento dele. O texto citado se encontra no livro Impulsividade para Iniciantes Volume 1 de Lúcio Aneu Sêneca (Luci Annaei Senecae ad Novatum de Ira Liber I). Aqui vai o texto original com símbolos separando as orações e, a seguir, a minha tradução:
||| fetos fadados à morte são abortados || já crianças [[ se de nascença incapazes de sobreviver e mal-formadas ]] são afogadas ||| não é impulsivo mas sim racional separar os sem-salvação dos sãos ||| igualmente nada é menos adequado a quem pune || do que agir impulsivamente || porque a punição nos move mais rumo à reparação || se for levada com juízo |||
Quando li o texto original acima, fiquei extremamente frustrado com a desonestidade intelectual dos citadores. Primeiramente, Sêneca não se pôs nem à favor nem contrário ao aborto ou ao infanticídio. Isso não era o tema debatido. O tema debatido era a diferença entre a punição impulsiva e a racional, entre punir alguém por impulso ou punir alguém com juízo. Certamente na sua época assim como hoje o aborto e o infanticídio eram praticados com aversão, remorso, resistência e tristeza por parte de todos os envolvidos. E é essa aversão vencida pela razão, tão presentes no aborto e no infanticídio, que Sêneca tentava convencer os estudantes de direito a ter para com ações punitivas em geral.
Dito isso, é importante ressaltar pontos: o uso das palavras portentosos, debiles, monstrosi, sanis, inutilia. "Feto portentoso" era um feto que tinha um indício de fatalidade e não uma "criança indesejada". "Débil" era alguém incapaz de sobreviver e não "fraco" ou "débil mental", "monstruoso" era alguém mal-formado e não "feio" ou "parecido com monstro". "São" era oposto de "inútil" e "inútil" aqui se refere à nossa incapacidade de fazer algo pela pessoa e não à inutilidade de uma pessoa para a comunidade.
Nossa sociedade mudou desde então. Hoje vivemos em um mundo com direitos humanos, um mundo em que se defende o direito de todos os seres humanos sem distinção. Um bebê prematuro, por exemplo, que era incapaz de sobreviver, hoje é salvo pela medicina moderna. Antes de existir um tratamento, era sim racional prender a respiração do bebê para adiantar a morte e evitar o seu sofrimento. Hoje, felizmente, temos outra opção e não conheço uma pessoa sequer que é a favor de terminar a vida de bebês nascidos prematuramente. Nem Sêneca seria a favor disso se fosse transportado para a atualidade, porque era a fatalidade da situação e não a deliberada vontade de eliminar os mais fracos para purificar a espécie o que estava em jogo.
Pronto, desabafei... e torço para ter feito justiça à lembrança de uma grande figura do nosso passado: Sêneca.
||| portentosos fetus extinguimus || liberos quoque [[ si debiles monstrosique editi sunt ]] mergimus || nec ira sed ratio est a sanis inutilia secernere ||| nil minus [[ quam irasci ]] punientem decet || cum eo magis ad emendationem poena proficiat || si iudicio lata est. |||
||| fetos fadados à morte são abortados || já crianças [[ se de nascença incapazes de sobreviver e mal-formadas ]] são afogadas ||| não é impulsivo mas sim racional separar os sem-salvação dos sãos ||| igualmente nada é menos adequado a quem pune || do que agir impulsivamente || porque a punição nos move mais rumo à reparação || se for levada com juízo |||
Quando li o texto original acima, fiquei extremamente frustrado com a desonestidade intelectual dos citadores. Primeiramente, Sêneca não se pôs nem à favor nem contrário ao aborto ou ao infanticídio. Isso não era o tema debatido. O tema debatido era a diferença entre a punição impulsiva e a racional, entre punir alguém por impulso ou punir alguém com juízo. Certamente na sua época assim como hoje o aborto e o infanticídio eram praticados com aversão, remorso, resistência e tristeza por parte de todos os envolvidos. E é essa aversão vencida pela razão, tão presentes no aborto e no infanticídio, que Sêneca tentava convencer os estudantes de direito a ter para com ações punitivas em geral.
Dito isso, é importante ressaltar pontos: o uso das palavras portentosos, debiles, monstrosi, sanis, inutilia. "Feto portentoso" era um feto que tinha um indício de fatalidade e não uma "criança indesejada". "Débil" era alguém incapaz de sobreviver e não "fraco" ou "débil mental", "monstruoso" era alguém mal-formado e não "feio" ou "parecido com monstro". "São" era oposto de "inútil" e "inútil" aqui se refere à nossa incapacidade de fazer algo pela pessoa e não à inutilidade de uma pessoa para a comunidade.
Nossa sociedade mudou desde então. Hoje vivemos em um mundo com direitos humanos, um mundo em que se defende o direito de todos os seres humanos sem distinção. Um bebê prematuro, por exemplo, que era incapaz de sobreviver, hoje é salvo pela medicina moderna. Antes de existir um tratamento, era sim racional prender a respiração do bebê para adiantar a morte e evitar o seu sofrimento. Hoje, felizmente, temos outra opção e não conheço uma pessoa sequer que é a favor de terminar a vida de bebês nascidos prematuramente. Nem Sêneca seria a favor disso se fosse transportado para a atualidade, porque era a fatalidade da situação e não a deliberada vontade de eliminar os mais fracos para purificar a espécie o que estava em jogo.
Pronto, desabafei... e torço para ter feito justiça à lembrança de uma grande figura do nosso passado: Sêneca.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
DDR
Antes de dormir, Alex e eu assistimos o filme "Coming Out" produzido na Berlin Oriental e lançado no dia 9 de Novembro de 1989. A cada cena, Alex comentava algo: essa era a porta da minha casa, eu freqüentei esse bar, era assim mesmo o cruising no parque, assim era a Praça de Alexandre... Depois do filme, ficamos conversando até tarde.
Daniel: Esse filme é uma crítica fortíssima à sociedade da época. Como foi que alguém conseguiu produzir esse filme em um regime ditatorial?
Alex: Os militares não entenderam a crítica, acharam que o filme só retratava fielmente a realidade.
Daniel: É sempre assim. O mesmo aconteceu no Brasil. A realidade tem uma forte tendência libertária...
sábado, 7 de abril de 2012
Varegista de ascendência estrangeira
Ontem Michel e eu combinamos de dar uma passada no Campo da Páscoa. Decidimos não comer em casa para experimentar as comidas de lá. Chegando na feira, não havia ninguém. Todas as barracas estavam fechadas e as luzes apagadas. Caminhamos, então, até a estação ferroviária central e paramos em uma barraca de salsicha. Michel pediu uma salsicha de Viena com katchup e mostarda e eu pedi uma salsicha apresuntada de Cracau com pão e mostarda.
Michel: A gente pode aproveitar para perguntar o horário de funcionamento da feira para o varegista.
Daniel: Você tem razão. Oi, de novo! Por acaso, o senhor saberia o motivo de o Campo de Páscoa estar fechado hoje?
Varegista: Sim, claro. Dizem que Jesus morreu numa sexta-feira e, por isso, eles não abrem a feira. Eles estão de luto hoje.
Michel: A gente pode aproveitar para perguntar o horário de funcionamento da feira para o varegista.
Daniel: Você tem razão. Oi, de novo! Por acaso, o senhor saberia o motivo de o Campo de Páscoa estar fechado hoje?
Varegista: Sim, claro. Dizem que Jesus morreu numa sexta-feira e, por isso, eles não abrem a feira. Eles estão de luto hoje.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Juventude Rebelde
Para o café da manhã, comprei croissants e pães integrais. Chegando de volta ao apartamento do Alex, montei uma mesa com os pães e o que tínhamos na geladeira: geleia, queijo, presunto, mortadela, manteiga e marzipan. Por fim, preparamos um café com leite bem gostoso. A conversa girou em torno dos nossos pais e avós.
Alex: A minha avó tinha um contato bem próximo com as pessoas do acampamento russo em Berlin. Ela não se prostituía, mas ganhava comida quando estava no acampamento. Eu acredito que ela tenha se apaixonado por um militar russo e que minha mãe seja fruto dessa relação. Eu não conheci o meu avô e esse assunto nunca foi permitido na minha família. Como muita gente me pergunta se eu tenho ascendência russa, eu acredito que eu tenha puxado esses traços daí.
Daniel: Eu ficaria tão feliz se fosse possível que as relações declaradas correspondessem mais às relações reais; que a sua avó, por exemplo, pudesse contar a vocês quem foi o seu avô; certamente isso seria relevante para você, fosse o seu avô quem quer que fosse.
Mais tarde, passeando pelo Campo da Páscoa (Osterwiese) com o Alex, nos deparamos com uma pista de carrinho de bate-bate repleta de garotos e garotas rebeldes. Ficamos observando e conversando sobre a cena:
Alex: Aqui se pode fazer uma pesquisa sociológica. A juventude rebelde se junta toda nesta atração. Os garotos com mais status sentam em cima do encosto da cadeira e dirigem com uma mão só. A maioria deles tem ascendência turca, né?
Daniel: É realmente interessante que a ascendência turca, alemã ou russa seja relevante aqui. No Brasil, ter ascendência turca ou alemã não faz a menor diferença. E você, inclusive, tem um quarto de ascendência russa, né?
Alex: É, mas a minha avó criou a minha mãe sozinha e o meu avô não fez parte da educação da minha mãe.
Alex: A minha avó tinha um contato bem próximo com as pessoas do acampamento russo em Berlin. Ela não se prostituía, mas ganhava comida quando estava no acampamento. Eu acredito que ela tenha se apaixonado por um militar russo e que minha mãe seja fruto dessa relação. Eu não conheci o meu avô e esse assunto nunca foi permitido na minha família. Como muita gente me pergunta se eu tenho ascendência russa, eu acredito que eu tenha puxado esses traços daí.
Daniel: Eu ficaria tão feliz se fosse possível que as relações declaradas correspondessem mais às relações reais; que a sua avó, por exemplo, pudesse contar a vocês quem foi o seu avô; certamente isso seria relevante para você, fosse o seu avô quem quer que fosse.
Mais tarde, passeando pelo Campo da Páscoa (Osterwiese) com o Alex, nos deparamos com uma pista de carrinho de bate-bate repleta de garotos e garotas rebeldes. Ficamos observando e conversando sobre a cena:
Alex: Aqui se pode fazer uma pesquisa sociológica. A juventude rebelde se junta toda nesta atração. Os garotos com mais status sentam em cima do encosto da cadeira e dirigem com uma mão só. A maioria deles tem ascendência turca, né?
Daniel: É realmente interessante que a ascendência turca, alemã ou russa seja relevante aqui. No Brasil, ter ascendência turca ou alemã não faz a menor diferença. E você, inclusive, tem um quarto de ascendência russa, né?
Alex: É, mas a minha avó criou a minha mãe sozinha e o meu avô não fez parte da educação da minha mãe.
domingo, 11 de março de 2012
O papel aceita tudo
Após uma reunião, fomos eu, John Bateman e Matthias Scheutz a um restaurante. No caminho, conversávamos sobre robôs e, de repente, o assunto ficou filosófico:
Matthias: [...] quando se conversa com robôs [...] porque não faz sentido falar sobre algo que não existe.
Daniel: Nem todo mundo concorda com isso. Existe muita gente que passa a vida inteira falando sobre coisas que não existem. E a gente conhece um bom número deles tanto na sociedade em geral quanto na academia.
Matthias: É. Você tem razão. Então você vai gostar de um experimento que eu fiz. Colocamos uma caixa azul na frente de um robô. Ele tinha duas câmeras no lugar dos olhos e nós fizemos um software que reconhece o formato e a cor da caixa na imagem capturada. Esses traços da imagem ficavam disponíveis para o módulo linguístico. Assim podíamos conversar com o robô e observar suas reações:
Pessoa: Tem uma caixa azul na sua frente?
Robô: Tem.
Pessoa: Cadê?
Robô: Aí ó. (Apontando!)
Matthias: Então o robô continha o mínimo necessário para haver cognição e conseguíamos ter acesso ao processo cognitivo por meio do diálogo. Mas acessávamos somente traços da percepção e não a percepção como um todo. O interessante acontece quando começamos a brincar com o software de reconhecimento. Retiramos a caixa da frente do robô, mas continuamos a emitir o sinal de formato e cor da caixa. Quando conversávamos com o robô, ele agia como uma pessoa esquizofrênica, que enxerga o que não está presente. Colocamos a caixa de novo na frente dele e forçamos o software a parar de enviar o sinal e, assim, o robô parou de reconhecer a caixa apesar de enxergá-la. Com esse "experimento", conseguimos demonstrar que é possível que exista a mente e que ela seja um processo físico. O bom é podermos transformar teorias de papel em modelos testáveis. Se alguém quiser um modelo filosófico melhor, que tente mostrar que o modelo funciona e não somente escrevê-lo no papel.
Matthias: [...] quando se conversa com robôs [...] porque não faz sentido falar sobre algo que não existe.
Daniel: Nem todo mundo concorda com isso. Existe muita gente que passa a vida inteira falando sobre coisas que não existem. E a gente conhece um bom número deles tanto na sociedade em geral quanto na academia.
Matthias: É. Você tem razão. Então você vai gostar de um experimento que eu fiz. Colocamos uma caixa azul na frente de um robô. Ele tinha duas câmeras no lugar dos olhos e nós fizemos um software que reconhece o formato e a cor da caixa na imagem capturada. Esses traços da imagem ficavam disponíveis para o módulo linguístico. Assim podíamos conversar com o robô e observar suas reações:
Pessoa: Tem uma caixa azul na sua frente?
Robô: Tem.
Pessoa: Cadê?
Robô: Aí ó. (Apontando!)
Matthias: Então o robô continha o mínimo necessário para haver cognição e conseguíamos ter acesso ao processo cognitivo por meio do diálogo. Mas acessávamos somente traços da percepção e não a percepção como um todo. O interessante acontece quando começamos a brincar com o software de reconhecimento. Retiramos a caixa da frente do robô, mas continuamos a emitir o sinal de formato e cor da caixa. Quando conversávamos com o robô, ele agia como uma pessoa esquizofrênica, que enxerga o que não está presente. Colocamos a caixa de novo na frente dele e forçamos o software a parar de enviar o sinal e, assim, o robô parou de reconhecer a caixa apesar de enxergá-la. Com esse "experimento", conseguimos demonstrar que é possível que exista a mente e que ela seja um processo físico. O bom é podermos transformar teorias de papel em modelos testáveis. Se alguém quiser um modelo filosófico melhor, que tente mostrar que o modelo funciona e não somente escrevê-lo no papel.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Nós somos comunistas!
Como projeto final do curso de Introdução à Linguística Computacional, propus um trabalho com divisão de responsabilidades. A intenção era a de estimular que os alunos revisassem o próprio trabalho em diferentes aspectos e de permitir que todos cooperassem. As notas seriam 75% referentes ao trabalho coletivo e 25% à responsabilidade individual. Hoje recebi um email de protesto: um grupo se declarou comunista e demandou que todos recebessem a mesma nota.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Viagem para Amsterdam
A minha vida aqui está um agito. No meio de tudo, vou tirar quatro dias de pausa. Vou encontrar dois amigos meus em Amsterdam e depois vamos vir juntos para Bremen passar mais dois dias aqui. Eles prosseguem a viagem para Berlim e eu fico por aqui.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Apendicite
Um amigo meu teve apendicite no sábado e, por isso, ele, o marido dele e eu passamos os últimos três dias no hospital. Hoje ele voltou para a casa. Durante a pausa, tivemos a oportunidade de conversar bastante sobre a evolução do pensamento ocidental, sobre a idade média e o iluminismo, sobre a colonização das Americas, sobre a importância do nosso papel social no Brasil (os três quase doutores) e sobre a dificuldade de influenciar positivamente um povo que nos considera uma má influência. Em algum momento, chegamos ao Bolsonaro, uma figura temerária da nossa política. Aqui está a citação que discutimos:
as imagens lá da Marinor está bem claro, que ela me agrediu. quando perde a razão, fica acusando de homofóbico, agora gostar de homossexual sai para lá ninguém gosta, está ok? ninguém gosta, a gente suporta. [...] e esse PSOL aí é um partido de pirocas, está ok? é coisa de viado o que eles estão fazendo. (Jair Bolsonaro)
A minha contribuição na discussão foi um tanto quanto linguística:
Quando ouço algo como essa fala do Bolsonaro, percebo que a mente fundamentalista tem propriedades bem interessantes. "Ninguém", "a gente não" e "eu não" parecem se fundir em um único conceito, serem sinônimos. Por exemplo, as orações intercaladas "agora gostar de homossexual sai para lá ninguém gosta" parece ser uma mera variação de "eu não gosto de homossexuais". O raciocínio deve ser algo assim: eu, pessoas como eu, gente que é gente. Outro ponto interessante é o "coisa de viado". O tema da oração "é coisa de viado o que eles estão fazendo" parece ser esse atributo non-sense "coisa de viado" que serve para colocar o deputado Jean Wyllys e seus aliados no grupo dos viados e a si mesmo no grupo opositor dos não-viados. Não parece existir a possibilidade na mente dele de que pessoas de um mesmo grupo ajam de modos diferentes, que alguns homens gostem de mulheres e outros de homens e que alguns defensores de homossexuais gostem de pessoas do sexo oposto e outros de pessoas do mesmo sexo. Para ele, tudo tem de ser simples: quem é homem gosta de mulher, quem defende viado é viado, quem perde a razão me acusa e é assim e pronto...
Aqui está o pronunciamento do Deputado Federal Jair Bolsonaro:
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