Antiontem o Marco Feliciano (PSC/SP) adentrou a Comissão do Plano Nacional de Educação para se opor ao combate da discriminação por gênero e por orientação sexual nas escolas. Para ele, a palavra "gênero" é de semântica tão vaga que nem se consegue pronunciá-la direito. No entanto, ele parece conseguir distinguir muito bem a sua mãe do seu pai e, com a excessão de um referência ao Luiz Mott, homem homossexual, como "a senhora" no passado, ele parece reconhecer o gênero dos/das presentes e se dirigir a eles/elas e os/as mencionar no gênero socialmente esperado. Interessantemente, ele disse uma vez: "não tenho nenhum tipo de preconceito: na minha secretaria, vou tratar negros e gays como se fosse qualquer pessoa normal". Essa sua fala foi reproduzida por aqueles que o odeiam enquanto político porque estes contam com o fato de que as palavras de Marco Feliciano terão um significado convencional e servirão contra ele. Para Marco Feliciano, novamente a culpa é da maldita semântica.
Ontem, outro caso me impressionou. Desta vez, o significado não entendido é o significado de determinação. O Congresso pede agora a definição de "fato determinado" para o STF porque o congresso não conseguiu decidir se "os quatro fatos" que motivariam uma CPI são "determinados" ou não. No entanto, ninguém tem dúvida de que o discutido é fatual nem que falte alinhamento entre os objetos mentais sobre os quais os interlocutores pensam que discutem. Todos falam do fato A, do fato B e assim por diante entendendo o que cada fato é. Se esses fatos são determinados ou não, isso parece ser mais uma vez uma questão de semântica: maldita semântica!
quinta-feira, 10 de abril de 2014
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Neutralidade de Olavo de Carvalho
Assisti a um vídeo de Olavo de Carvalho – dito professor, filósofo e jornalista – em que ele se propõe a explicar com neutralidade a distinção entre homossexualidade e homoafetividade. Em seu vídeo, ele define homoafetividade como a prática de "dar o cu", diz que o termo homossexualidade é uma palhaçada da ditadura gayzista e que o que existe é homossexualismo, ou seja, a prática de "dar o cu". Depois, explica que a geração de novas vidas é a essência da unidade familiar e que, por isso, não existe nenhuma lei no mundo que impeça uma pessoa a se separar do seu parceiro se o seu parceiro for impotente ou se a sua parceira for estéril. Depois, ironizou dizendo que, se o casamento de marmanjos for permitido, ele gostaria que o Luiz Mott se casasse com os 500 marmanjos com os quais ele disse ter tido relações afetivas e sexuais e que ficasse responsável de sustentar esses 500 marmanjos desgraçados. Enquanto ele dizia isso, jovens riam atrás das câmeras, aparentemente achavam os comentários divertidos.
Na argumentação de Olavo de Carvalho, existem pessoas qualificadas e desqualificadas, pessoas que merecem o respeito da sociedade, dignas desse respeito, e pessoas que não o merecem, indignas. Os homens e as mulheres são os dignos de respeito, os marmanjos e desgraçados homossexuais são os indignos. Mulheres homossexuais não existem, bissexuais tampouco.[1] Em seguida, argumenta que a inexistência de leis que proíbam pessoas a se separarem em caso de impotência e de esterilidade seja uma prova de que a unidade familiar é motivada pela geração de prole, esquecendo-se porém de que a inexistência de leis que proíbam pessoas a se separarem em caso de ausência de sexo sem fins reprodutivos não fosse uma prova contrária. Ele termina o seu vídeo fazendo uma crítica pessoal ao Luiz Mott por ele ter tido mais de 500 relações afetivo-sexuais em sua vida e generalizando a vida de Luiz Mott para todos os homens homossexuais. Adiciona no último minuto a interpretação de que uma unidade familiar é composta por um dominante e um ou mais dependentes e não entre duas pessoas iguais em direitos e deveres como impõe a Constituição Brasileira. Ou seja, nada do que foi dito diferencia os conceitos de sexualidade e afetividade nem as prazerosas e sofridas ausências de correspondência entre os dois (há quem faça sexo sem amar e quem ame sem ser amado).
Resultado: após assistir a esse vídeo, passo a considerar cognitivamente incapaz toda e qualquer pessoa que se referir a esse criminoso (estou na Alemanha e aqui ele é um criminoso) como professor, filósofo ou jornalista. Ou seja, Olavo de Carvalho, na sua neutralidade, poderá tornar algumas pessoas incapazes de se aproximar e permanecer no meu núcleo social.
[1] Somente por indignar groups sociais, Olavo de Carvalho teria cometido um crime na Alemanha e estaria sujeito à monitoramento secreto pelos Defensores da Constituição (Verfassungsschutz) e à pena de prisão. Na Alemanha, a dignidade humana é intocável e falas como a do Olavo de Carvalho são consideradas discursos de ódio.
Na argumentação de Olavo de Carvalho, existem pessoas qualificadas e desqualificadas, pessoas que merecem o respeito da sociedade, dignas desse respeito, e pessoas que não o merecem, indignas. Os homens e as mulheres são os dignos de respeito, os marmanjos e desgraçados homossexuais são os indignos. Mulheres homossexuais não existem, bissexuais tampouco.[1] Em seguida, argumenta que a inexistência de leis que proíbam pessoas a se separarem em caso de impotência e de esterilidade seja uma prova de que a unidade familiar é motivada pela geração de prole, esquecendo-se porém de que a inexistência de leis que proíbam pessoas a se separarem em caso de ausência de sexo sem fins reprodutivos não fosse uma prova contrária. Ele termina o seu vídeo fazendo uma crítica pessoal ao Luiz Mott por ele ter tido mais de 500 relações afetivo-sexuais em sua vida e generalizando a vida de Luiz Mott para todos os homens homossexuais. Adiciona no último minuto a interpretação de que uma unidade familiar é composta por um dominante e um ou mais dependentes e não entre duas pessoas iguais em direitos e deveres como impõe a Constituição Brasileira. Ou seja, nada do que foi dito diferencia os conceitos de sexualidade e afetividade nem as prazerosas e sofridas ausências de correspondência entre os dois (há quem faça sexo sem amar e quem ame sem ser amado).
Resultado: após assistir a esse vídeo, passo a considerar cognitivamente incapaz toda e qualquer pessoa que se referir a esse criminoso (estou na Alemanha e aqui ele é um criminoso) como professor, filósofo ou jornalista. Ou seja, Olavo de Carvalho, na sua neutralidade, poderá tornar algumas pessoas incapazes de se aproximar e permanecer no meu núcleo social.
[1] Somente por indignar groups sociais, Olavo de Carvalho teria cometido um crime na Alemanha e estaria sujeito à monitoramento secreto pelos Defensores da Constituição (Verfassungsschutz) e à pena de prisão. Na Alemanha, a dignidade humana é intocável e falas como a do Olavo de Carvalho são consideradas discursos de ódio.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Nick e os verbos
Nick comprou um livro chamado "Brasilianisch ohne Mühe" (Brasileiro sem Esforço) sob recomendação de um brasileiro que acompanhou outros alemães a aprender a língua do Brasil. Esse foi o quinto livro que Nick comprou para aprender o nosso idioma e é o primeiro que ele acredita que pode ajudá-lo a aprender algo. Folheei o livro e entendi o motivo.
Este é o primeiro livro que ele comprou que se dedica exclusivamente à língua do Brasil. Os outros livros são interrompidos após cada exemplo por alertas como "assim se fala em Portugal" e "assim se fala no Brasil", o que torna a tarefa de aprender uma língua infinitamente mais difícil, pois o estudante aprende algo e é informado em seguida que aquilo não se usa onde ele quer se fazer entender. Isso demanda um esforço de seleção daquilo que se deve desaprender, esforço esse que poderia ser dedicado a aprender algo novo.
Além disso, este é o único livro que contém uma transcrição fonológica dos diálogos. Assim, o Nick consegue sozinho aprender não somente a escrita do Brasil como também a nossa fala. Por fim, como a língua não é somente forma, mas também o mapeamento entre forma e significado, o livro oferece para todos os enunciados uma versão traduzida para Alemão e uma versão 'transpalavreada' para Alemão (palavras do Alemão na ordem do Português).
Por tudo isso, Brasilianisch ohne Mühe é um livro que eu recomendo para Alemães que querem aprender a língua do Brasil, sendo ela parecida ou não com a língua de Portugal, com a da Argentina, com a do Paraguay e assim por diante. Uma vez aprendida a língua da ex-colônia, quem sabe alemães se aventurarão a aprender a língua do ex-reino? Quem sabe? O futuro está aberto e isso não é improvável. Não tenho nenhuma dúvida que Lisboa é a cidade européia mais amada por aqueles que conheci aqui até agora, uma cidade maravilhosa onde todos gostariam de morar. ;-)
Este é o primeiro livro que ele comprou que se dedica exclusivamente à língua do Brasil. Os outros livros são interrompidos após cada exemplo por alertas como "assim se fala em Portugal" e "assim se fala no Brasil", o que torna a tarefa de aprender uma língua infinitamente mais difícil, pois o estudante aprende algo e é informado em seguida que aquilo não se usa onde ele quer se fazer entender. Isso demanda um esforço de seleção daquilo que se deve desaprender, esforço esse que poderia ser dedicado a aprender algo novo.
Além disso, este é o único livro que contém uma transcrição fonológica dos diálogos. Assim, o Nick consegue sozinho aprender não somente a escrita do Brasil como também a nossa fala. Por fim, como a língua não é somente forma, mas também o mapeamento entre forma e significado, o livro oferece para todos os enunciados uma versão traduzida para Alemão e uma versão 'transpalavreada' para Alemão (palavras do Alemão na ordem do Português).
Por tudo isso, Brasilianisch ohne Mühe é um livro que eu recomendo para Alemães que querem aprender a língua do Brasil, sendo ela parecida ou não com a língua de Portugal, com a da Argentina, com a do Paraguay e assim por diante. Uma vez aprendida a língua da ex-colônia, quem sabe alemães se aventurarão a aprender a língua do ex-reino? Quem sabe? O futuro está aberto e isso não é improvável. Não tenho nenhuma dúvida que Lisboa é a cidade européia mais amada por aqueles que conheci aqui até agora, uma cidade maravilhosa onde todos gostariam de morar. ;-)
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Nick e a língua do Brasil
Nick está aprendendo português brasileiro porque quer conversar com os meus pais quando eles vierem me visitar e vem usando dicionários e tradutores automáticos para desvendar os mistérios da língua falada e escrita no Brasil. Tudo fluía bem até que foram encontradas pequenas mensagens deixadas em presentes como "p/ Daniel, para você lembrar que eu te amo! do seu amigo, Bruno." e "para você lembrar da sua amiga que te ama muito, Fernanda." ou no Facebook como "sonhei ontem a noite com você! não some!" e "não se esquece de mim, saudade!".
Amor e Saudade no Brasil
Com a ajuda do Google Translate, Nick traduziu "p/ Daniel, para você lembrar que eu te amo! do seu amigo, Bruno" por "Daniel, erinnere daran, dass ich dich liebe! Dein Freund, Bruno" (Daniel, lembre-se de que eu te quero só para mim! do seu namorado, Bruno) e levou, claro, um susto. Em seguida, traduziu "sonhei ontem a noite com você! não some!" como "Ich habe gestern Abend von dir geträumt! Verschwinde nicht!" (eu tive sonhos eróticos com você ontem a noite! não me abandone!), "saudade!" por "ich vermisse dich" (a casa está vazia sem você).
Daniel: Nick, "amar" em português não é "lieben". "Amar" significa que a relação é forte e sem fim. É um atributo de uma relação e não um tipo. O tipo de relação está na palavra "amigo" que não é "Freund" (namorado) e sim "Kumpel" (amigo).
Nick: Isso não existe em alemão. Aqui é tudo muito claro. "Ich libe dich" significa "eu sou seu namorado" e "ich habe dich lieb" significa "eu sou seu amigo". "Freund" (namorado) sou só eu e "Freunde" (amigos) é o plural de "Kumpel" (amigo).
Daniel: É, em português, "amar" não é uma categoria de relação e sim a intensidade e a duração.
Nick: Vai ser difícil aprender a sua língua. Bem que me avisaram que os sulistas não gostam de classificar as relações e não querem compromisso. Você não vai me fazer sofrer, vai? Como é que se fala que alguém só tem um parceiro em português?
Daniel: Monogâmico. Mo-no-gâ-mi-co.
Nick: Mo-no-gâ-mi-co? Você vai ser monogâmico?
Daniel: Claro!
Amor e Saudade no Brasil
Com a ajuda do Google Translate, Nick traduziu "p/ Daniel, para você lembrar que eu te amo! do seu amigo, Bruno" por "Daniel, erinnere daran, dass ich dich liebe! Dein Freund, Bruno" (Daniel, lembre-se de que eu te quero só para mim! do seu namorado, Bruno) e levou, claro, um susto. Em seguida, traduziu "sonhei ontem a noite com você! não some!" como "Ich habe gestern Abend von dir geträumt! Verschwinde nicht!" (eu tive sonhos eróticos com você ontem a noite! não me abandone!), "saudade!" por "ich vermisse dich" (a casa está vazia sem você).
Daniel: Nick, "amar" em português não é "lieben". "Amar" significa que a relação é forte e sem fim. É um atributo de uma relação e não um tipo. O tipo de relação está na palavra "amigo" que não é "Freund" (namorado) e sim "Kumpel" (amigo).
Nick: Isso não existe em alemão. Aqui é tudo muito claro. "Ich libe dich" significa "eu sou seu namorado" e "ich habe dich lieb" significa "eu sou seu amigo". "Freund" (namorado) sou só eu e "Freunde" (amigos) é o plural de "Kumpel" (amigo).
Daniel: É, em português, "amar" não é uma categoria de relação e sim a intensidade e a duração.
Nick: Vai ser difícil aprender a sua língua. Bem que me avisaram que os sulistas não gostam de classificar as relações e não querem compromisso. Você não vai me fazer sofrer, vai? Como é que se fala que alguém só tem um parceiro em português?
Daniel: Monogâmico. Mo-no-gâ-mi-co.
Nick: Mo-no-gâ-mi-co? Você vai ser monogâmico?
Daniel: Claro!
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Decisão Egoísta
Acabo de tomar uma decisão egoísta. Independente do que ocorrer na minha carreira daqui para frente, não tenho intenção de voltar para o Brasil. Vou preferir trabalhar no Vale do Silício, na Alemanha, na Austrália, no Japão, no Canadá, onde quer que me queiram e que eu não sinta risco de ser agredido fisicamente por ter bens nem prejudicado por critérios bestas.
A cada dia que passa, a ausência de violência e riscos que vivencio aqui me deixa mais indisposto e desanimado com o Brasil. Mas, na verdade, a minha decisão tem como ponto principal outra questão: o fato de que eu me sinto tratado de igual para igual pela primeira vez na minha vida. Eu sou mais um na multidão, estou vivendo a minha vida e estou feliz. E isso é o que importa, não é? Sinto falta da minha família, dos meus amigos de anos, mas assim que eu tiver me estabelecido em algum lugar, eu faço uma visita.
E a vida é longa, cheia de reviravoltas, quem sabe um dia...
A cada dia que passa, a ausência de violência e riscos que vivencio aqui me deixa mais indisposto e desanimado com o Brasil. Mas, na verdade, a minha decisão tem como ponto principal outra questão: o fato de que eu me sinto tratado de igual para igual pela primeira vez na minha vida. Eu sou mais um na multidão, estou vivendo a minha vida e estou feliz. E isso é o que importa, não é? Sinto falta da minha família, dos meus amigos de anos, mas assim que eu tiver me estabelecido em algum lugar, eu faço uma visita.
E a vida é longa, cheia de reviravoltas, quem sabe um dia...
sábado, 16 de junho de 2012
Impulsividade para Iniciantes
Ultimamente, venho lendo reportagens em jornais e revistas ao redor do mundo com citações de Sêneca proferidas por opositores do aborto. A ideia vendida é a de que Sêneca, não-cristãos e defensores do aborto de fetos sem cérebro querem executar uma eugenia ou um melhoramento da espécie humana por meio de assassinatos. Como me pareceu improvável que Sêneca tivesse defendido a eliminação dos mais fracos como os nazistas e fascistas fizeram, fui à fonte para entender o argumento dele. O texto citado se encontra no livro Impulsividade para Iniciantes Volume 1 de Lúcio Aneu Sêneca (Luci Annaei Senecae ad Novatum de Ira Liber I). Aqui vai o texto original com símbolos separando as orações e, a seguir, a minha tradução:
||| fetos fadados à morte são abortados || já crianças [[ se de nascença incapazes de sobreviver e mal-formadas ]] são afogadas ||| não é impulsivo mas sim racional separar os sem-salvação dos sãos ||| igualmente nada é menos adequado a quem pune || do que agir impulsivamente || porque a punição nos move mais rumo à reparação || se for levada com juízo |||
Quando li o texto original acima, fiquei extremamente frustrado com a desonestidade intelectual dos citadores. Primeiramente, Sêneca não se pôs nem à favor nem contrário ao aborto ou ao infanticídio. Isso não era o tema debatido. O tema debatido era a diferença entre a punição impulsiva e a racional, entre punir alguém por impulso ou punir alguém com juízo. Certamente na sua época assim como hoje o aborto e o infanticídio eram praticados com aversão, remorso, resistência e tristeza por parte de todos os envolvidos. E é essa aversão vencida pela razão, tão presentes no aborto e no infanticídio, que Sêneca tentava convencer os estudantes de direito a ter para com ações punitivas em geral.
Dito isso, é importante ressaltar pontos: o uso das palavras portentosos, debiles, monstrosi, sanis, inutilia. "Feto portentoso" era um feto que tinha um indício de fatalidade e não uma "criança indesejada". "Débil" era alguém incapaz de sobreviver e não "fraco" ou "débil mental", "monstruoso" era alguém mal-formado e não "feio" ou "parecido com monstro". "São" era oposto de "inútil" e "inútil" aqui se refere à nossa incapacidade de fazer algo pela pessoa e não à inutilidade de uma pessoa para a comunidade.
Nossa sociedade mudou desde então. Hoje vivemos em um mundo com direitos humanos, um mundo em que se defende o direito de todos os seres humanos sem distinção. Um bebê prematuro, por exemplo, que era incapaz de sobreviver, hoje é salvo pela medicina moderna. Antes de existir um tratamento, era sim racional prender a respiração do bebê para adiantar a morte e evitar o seu sofrimento. Hoje, felizmente, temos outra opção e não conheço uma pessoa sequer que é a favor de terminar a vida de bebês nascidos prematuramente. Nem Sêneca seria a favor disso se fosse transportado para a atualidade, porque era a fatalidade da situação e não a deliberada vontade de eliminar os mais fracos para purificar a espécie o que estava em jogo.
Pronto, desabafei... e torço para ter feito justiça à lembrança de uma grande figura do nosso passado: Sêneca.
||| portentosos fetus extinguimus || liberos quoque [[ si debiles monstrosique editi sunt ]] mergimus || nec ira sed ratio est a sanis inutilia secernere ||| nil minus [[ quam irasci ]] punientem decet || cum eo magis ad emendationem poena proficiat || si iudicio lata est. |||
||| fetos fadados à morte são abortados || já crianças [[ se de nascença incapazes de sobreviver e mal-formadas ]] são afogadas ||| não é impulsivo mas sim racional separar os sem-salvação dos sãos ||| igualmente nada é menos adequado a quem pune || do que agir impulsivamente || porque a punição nos move mais rumo à reparação || se for levada com juízo |||
Quando li o texto original acima, fiquei extremamente frustrado com a desonestidade intelectual dos citadores. Primeiramente, Sêneca não se pôs nem à favor nem contrário ao aborto ou ao infanticídio. Isso não era o tema debatido. O tema debatido era a diferença entre a punição impulsiva e a racional, entre punir alguém por impulso ou punir alguém com juízo. Certamente na sua época assim como hoje o aborto e o infanticídio eram praticados com aversão, remorso, resistência e tristeza por parte de todos os envolvidos. E é essa aversão vencida pela razão, tão presentes no aborto e no infanticídio, que Sêneca tentava convencer os estudantes de direito a ter para com ações punitivas em geral.
Dito isso, é importante ressaltar pontos: o uso das palavras portentosos, debiles, monstrosi, sanis, inutilia. "Feto portentoso" era um feto que tinha um indício de fatalidade e não uma "criança indesejada". "Débil" era alguém incapaz de sobreviver e não "fraco" ou "débil mental", "monstruoso" era alguém mal-formado e não "feio" ou "parecido com monstro". "São" era oposto de "inútil" e "inútil" aqui se refere à nossa incapacidade de fazer algo pela pessoa e não à inutilidade de uma pessoa para a comunidade.
Nossa sociedade mudou desde então. Hoje vivemos em um mundo com direitos humanos, um mundo em que se defende o direito de todos os seres humanos sem distinção. Um bebê prematuro, por exemplo, que era incapaz de sobreviver, hoje é salvo pela medicina moderna. Antes de existir um tratamento, era sim racional prender a respiração do bebê para adiantar a morte e evitar o seu sofrimento. Hoje, felizmente, temos outra opção e não conheço uma pessoa sequer que é a favor de terminar a vida de bebês nascidos prematuramente. Nem Sêneca seria a favor disso se fosse transportado para a atualidade, porque era a fatalidade da situação e não a deliberada vontade de eliminar os mais fracos para purificar a espécie o que estava em jogo.
Pronto, desabafei... e torço para ter feito justiça à lembrança de uma grande figura do nosso passado: Sêneca.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
DDR
Antes de dormir, Alex e eu assistimos o filme "Coming Out" produzido na Berlin Oriental e lançado no dia 9 de Novembro de 1989. A cada cena, Alex comentava algo: essa era a porta da minha casa, eu freqüentei esse bar, era assim mesmo o cruising no parque, assim era a Praça de Alexandre... Depois do filme, ficamos conversando até tarde.
Daniel: Esse filme é uma crítica fortíssima à sociedade da época. Como foi que alguém conseguiu produzir esse filme em um regime ditatorial?
Alex: Os militares não entenderam a crítica, acharam que o filme só retratava fielmente a realidade.
Daniel: É sempre assim. O mesmo aconteceu no Brasil. A realidade tem uma forte tendência libertária...
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