Encontrei Lena e Malin no café perto da minha academia. Malin é minha colega de sala da Suécia. E Lena é uma mestranda de física que fala sueco porque morou um ano em Estocolmo. Nós tomávamos chocolate quente enquanto discutíamos sobre o quanto é difícil se integrar na sociedade.
Malin: Eu nunca tinha pensado nesse assunto, porque eu tenho um telefone da Suécia que funciona aqui. Mas quem vem de outros países tem dificuldade na hora de comprar um telefone aqui. Nós, que já falamos um pouco de alemão, conseguimos nos virar com muita dificuldade, mas tem gente que chega para "se aprender" o nível A1. Se nós custamos para entender os menus de opções: 1) para apagar a mensagem, 2) para desabilitar a secretária eletrônica e 3) para salvar a mensagem como lembrança. Imagine aqueles que têm que "se aprender" o alemão ainda.
Lena: Malin, o verbo "aprender" não é reflexivo em alemão.
Malin: Sério?
Daniel: É. Em alemão são dois verbos: "ensinar" e "aprender". Como se fala "ensinar" em sueco, Malin?
Malin: Ah! Em sueco "ensinar" e "aprender" são o mesmo verbo. É como se fosse "ensino" e "me ensino".
Daniel: Isso acontece com toda língua que tem pronome reflexivo. Em português, por exemplo, a gente fala: eu já "me esqueci" disso.
Malin: Hahahahaha
Lena: Hahahahaha
Daniel: O que?
Malin: Em sueco, "se esquecer" é perder o controle. É ficar bebado e sair fazendo besteira.
Lena: Em alemão também.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
domingo, 12 de dezembro de 2010
Lions Club Parte I
Este fim de semana, fui convidado pelo Lions Club para passar dois dias em Hofgeismar e Kassel com a família Löber. Outros 11 estudantes foram convidados para passar o fim de semana com outras famílias. Fomos recebidos no castelo de Kassel – onde a Rapunzel se libertou de sua família com uma corda que ela mesma fez com o seu próprio cabelo para se casar com o seu amado – e lá comemos um delicioso pato ao molho de laranja.
Depois do jantar, fui sorteado para ficar na casa do senhor e a senhora Löber – donos da maior loja de ferramentas e materiais de construção da região – e fomos para a casa deles num Porsche Branco tração 4 rodas com poltronas aquecidas. Fizemos ainda uma visita aos novos vizinhos da família Löber, que construíram recentemente uma casa de teto plano horizontal inspirada em Bauhaus. Conversamos em um vão de quatro metros de altura e 30 metros quadrados ocupados por dois sofás e duas cadeiras com uma parede de vidro para o jardim. Lá fora nevava com muita força enquanto dentro fazia 27 graus. A senhora Friedrich é arquiteta e sua casa sem dúvidas é única na região. De longe, se vê que ali mora um arquiteto.
No dia seguinte, conhecemos o museu e o jardim do castelo de Kassel. Vimos a primeira pintura alemã em que se pintou a mesma imagem em distâncias diferentes, a primeira pintura de paisagem, a primeira pintura realista e a primeira pintura realista que expressa uma história.
Depois do jantar, fui sorteado para ficar na casa do senhor e a senhora Löber – donos da maior loja de ferramentas e materiais de construção da região – e fomos para a casa deles num Porsche Branco tração 4 rodas com poltronas aquecidas. Fizemos ainda uma visita aos novos vizinhos da família Löber, que construíram recentemente uma casa de teto plano horizontal inspirada em Bauhaus. Conversamos em um vão de quatro metros de altura e 30 metros quadrados ocupados por dois sofás e duas cadeiras com uma parede de vidro para o jardim. Lá fora nevava com muita força enquanto dentro fazia 27 graus. A senhora Friedrich é arquiteta e sua casa sem dúvidas é única na região. De longe, se vê que ali mora um arquiteto.
No dia seguinte, conhecemos o museu e o jardim do castelo de Kassel. Vimos a primeira pintura alemã em que se pintou a mesma imagem em distâncias diferentes, a primeira pintura de paisagem, a primeira pintura realista e a primeira pintura realista que expressa uma história.
sábado, 4 de dezembro de 2010
O que não sabemos
A professora propôs uma atividade divertida para os alunos. Cada aluno seria uma pessoa famosa. O nome dessa pessoa famosa seria pregado nas nossas costas e nós precisaríamos perguntar para os colegas informações como o nosso sexo, ocupação e nacionalidade. Era um exercício meramente linguístico que funcionou mais ou menos assim:
PAPA BENTO
Kodai: Sou um homem?
Turma: É.
Kodai: Sou alemão?
Turma: É.
Kodai: Sou político?
Turma: Não.
Kodai: Sou artista?
Turma: Não.
Kodai: Sou cientista?
Turma: Não.
Kodai: Sou esportista?
Turma: Não.
Kodai: Sou conhecido?
Turma: É.
Kodai: Sou apresentador de TV?
Turma: Não.
Kodai: Sou escritor?
Turma: Não.
Professora: O que mais é importante além de política, arte, esporte e conhecimento?
Kodai: Não sei.
Professora: O que é importante nos países cristãos e nos países islâmicos?
Daniel: Professora, o Kodai é do Japão.
Professora: Qual é o cargo mais importante na igreja católica?
Kodai: O Papa?
Professora: Isso!
ALBERT EINSTEIN
Eman: Sou uma mulher?
Turma: O que?
Professora: Pergunta mais alto!
Eman: Sou uma mulher?
Turma: Não.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman: Ele é um político?
Professora: Não.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman: Ele é um esportista?
Professora: Não.
Eman: Ele é um cientista?
Professora: É.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman:
Professora: Você é o Albert Einstein, que descobriu a teoria da relatividade.
Eman: Não conheço.
PAPA BENTO
Kodai: Sou um homem?
Turma: É.
Kodai: Sou alemão?
Turma: É.
Kodai: Sou político?
Turma: Não.
Kodai: Sou artista?
Turma: Não.
Kodai: Sou cientista?
Turma: Não.
Kodai: Sou esportista?
Turma: Não.
Kodai: Sou conhecido?
Turma: É.
Kodai: Sou apresentador de TV?
Turma: Não.
Kodai: Sou escritor?
Turma: Não.
Professora: O que mais é importante além de política, arte, esporte e conhecimento?
Kodai: Não sei.
Professora: O que é importante nos países cristãos e nos países islâmicos?
Daniel: Professora, o Kodai é do Japão.
Professora: Qual é o cargo mais importante na igreja católica?
Kodai: O Papa?
Professora: Isso!
ALBERT EINSTEIN
Eman: Sou uma mulher?
Turma: O que?
Professora: Pergunta mais alto!
Eman: Sou uma mulher?
Turma: Não.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman: Ele é um político?
Professora: Não.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman: Ele é um esportista?
Professora: Não.
Eman: Ele é um cientista?
Professora: É.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman:
Professora: Pergunta outra coisa.
Eman:
Professora: Você é o Albert Einstein, que descobriu a teoria da relatividade.
Eman: Não conheço.
Vocabulário Alemão
25º – es ist heiß – está normal
15º – es ist warm – está frio
5º – es ist kühl – está gelado
-5º – es ist kalt – puta merda!
-15º - es ist eisig kalt – por que este povo ainda tá aqui?!
sábado, 27 de novembro de 2010
Realmente, eu sou brasileiro
Fui a uma loja de cafés com o Wolfram. Lá havia cafés de todo o mundo. O preferido do Wolfram é o da Etiópia. Essa loja vende cafés a um preço um pouco mais caro do que o supermercado porque ela pratica comércio justo para garantir que os fornecedores recebam um valor adequado pela produção e que possam pagar bem os seus funcionários. Lá escolhemos café brasileiro de Minas Gerais, moído na hora. Chegando em casa, coamos o café num filtro Melitta para a degustação.
Daniel: Tem gosto de café do Brasil.
Wolfram: Como assim? É café do Brasil!
Daniel: Eu sei. Eu quero dizer que tem gosto de café.
Wolfram: Mas é café.
Daniel: Eu sei. Mas esse é o gosto de café... de café...
Wolfram: O gosto dele é mais fraco que o da Etiópia, menos amargo.
Daniel: Para mim, esse é o gosto de café. Café tem esse gosto. O da Etiópia é que é mais amargo.
Daniel: Tem gosto de café do Brasil.
Wolfram: Como assim? É café do Brasil!
Daniel: Eu sei. Eu quero dizer que tem gosto de café.
Wolfram: Mas é café.
Daniel: Eu sei. Mas esse é o gosto de café... de café...
Wolfram: O gosto dele é mais fraco que o da Etiópia, menos amargo.
Daniel: Para mim, esse é o gosto de café. Café tem esse gosto. O da Etiópia é que é mais amargo.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Mackenzie – os que não se enxergam
Vou falar sobre sexo. Alguém precisa falar sobre sexo de modo claro e objetivo. Peço para lerem os próximos dois parágrafos somente aqueles que se sentirem confortáveis com esse tema. Acabo de fazer o meu pedido e espero que a minha decisão de falar sobre esse tema seja respeitada.
O meu ímpeto de falar sobre sexo começou quando ouvi Olavo de Carvalho comentar o episódio em que o reitor Augustus Nicodemus Lopes da Universidade Mackenzie – onde desde 2008 se ensina que o deus cristão criou a terra – divulgou se opor ao PL122, que criminaliza a homofobia. Olavo de Carvalho se denomina filósofo e defende a opinião do reitor. Ele, como um comentarista, é uma pessoa absolutamente irrelevante na minha vida, mas o seu comentário expõe com tanta clareza como funciona a mente de uma pessoa homofóbica que ele se torna relevante enquanto objeto de observação e entendimento de mundo.
Segundo Olavo de Carvalho, práticas como ter até duas amantes e frequentar bordéis são aceitáveis desde que as amantes não sejam esposas de conhecidos. Contudo, como ele não deseja ter um parceiro do sexo masculino, tudo o que esse parceiro hipotético faria é considerado inaceitável. Ele retrata sua cena imaginária colocando-se como um participante da penetração e, por isso, ele enxerga o outro participante como alguém que não deveria estar ali. A partir dessa fantasia, conclui que os homossexuais exercem somente as ações passivas da penetração. Olavo de Carvalho é incapaz de perceber que assumiu um papel na relação imaginada e, com essa visão angular, ele não enxerga o homossexual ativo na penetração. Por consequência, considera indigno de respeito alguém que seja homossexual, aquele ser que invadiu a sua fantasia e lhe trouxe incômodo.
Para aqueles que se interessam em conferir como raciocinam os opositores do PL122, que criminaliza a homofobia, aqui está a voz do Olavo de Carvalho:
O meu ímpeto de falar sobre sexo começou quando ouvi Olavo de Carvalho comentar o episódio em que o reitor Augustus Nicodemus Lopes da Universidade Mackenzie – onde desde 2008 se ensina que o deus cristão criou a terra – divulgou se opor ao PL122, que criminaliza a homofobia. Olavo de Carvalho se denomina filósofo e defende a opinião do reitor. Ele, como um comentarista, é uma pessoa absolutamente irrelevante na minha vida, mas o seu comentário expõe com tanta clareza como funciona a mente de uma pessoa homofóbica que ele se torna relevante enquanto objeto de observação e entendimento de mundo.
Segundo Olavo de Carvalho, práticas como ter até duas amantes e frequentar bordéis são aceitáveis desde que as amantes não sejam esposas de conhecidos. Contudo, como ele não deseja ter um parceiro do sexo masculino, tudo o que esse parceiro hipotético faria é considerado inaceitável. Ele retrata sua cena imaginária colocando-se como um participante da penetração e, por isso, ele enxerga o outro participante como alguém que não deveria estar ali. A partir dessa fantasia, conclui que os homossexuais exercem somente as ações passivas da penetração. Olavo de Carvalho é incapaz de perceber que assumiu um papel na relação imaginada e, com essa visão angular, ele não enxerga o homossexual ativo na penetração. Por consequência, considera indigno de respeito alguém que seja homossexual, aquele ser que invadiu a sua fantasia e lhe trouxe incômodo.
Para aqueles que se interessam em conferir como raciocinam os opositores do PL122, que criminaliza a homofobia, aqui está a voz do Olavo de Carvalho:
O que é agressividade em três perguntas
Daniel: Como se fala "sem escrúpulos" em Alemão?
Wolfram: "Böse".
Daniel: E "ela ficou com raiva"?
Wolfram: "Sie war böse".
Daniel: E "ela foi agressiva, ao me atender"?
Wolfram: "Sie war böse" também.
Daniel: Comportamento, sentimento e caráter são a mesma palavra?
Wolfram: Nesse caso são.
Wolfram: "Böse".
Daniel: E "ela ficou com raiva"?
Wolfram: "Sie war böse".
Daniel: E "ela foi agressiva, ao me atender"?
Wolfram: "Sie war böse" também.
Daniel: Comportamento, sentimento e caráter são a mesma palavra?
Wolfram: Nesse caso são.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Lost in Translation
Ontem Wolfram me levou a um concerto na Igreja São Jacó. O primeiro ato foi uma sinfonia com órgão e o segundo foi Requiem de Mozart. Quando o coro começou a cantar, eu me surpreendi: eu conseguia entender a letra da música e eu não estava sonhando. Abri o folheto impressionado e comparei o texto em latim com o texto em alemão. Entendia o que estava escrito em latim e não o que estava escrito em alemão. O som era lindo e suave, mas enquanto os outros ouviam o ritmo, a melodia e as rimas, eu ouvia uma súplica por perdão, vozes que se diziam indignas ao que pediam a Jesus, vozes que se comparavam com mães solteiras e ladrões. Elas pediam para não serem jogadas à fogueira ou ao fundo do lago, para não serem jogadas de comida aos leões, nem no mar de piche, nem no poço escuro. Elas queriam continuar vivendo, mas não eram dignas a isso. Quando a música acabou, fez-se um silêncio imenso enquanto os sinos tocavam distantes, bem distantes acima de nós.
Offertorium – Mozart
sábado, 20 de novembro de 2010
Wolfram no Telefone
Wolfram: "Então, o Daniel me mostrou ontem os amigos dele numa página de Internet que parece com o Facebook, mas que só é usada no Brasil. Ele tem uns 350 amigos nessa rede social. Quando eu disse que não entendia como as pessoas hoje tinham tantos amigos virtuais, ele me contou que ele conhece todas essas pessoas e que nem todos os conhecidos e amigos dele estavam ali, menos da metade. Ele então me contou que vivia uma vida completamente inacreditável e que ele encontrava os amigos dele todos os dias e que ia a quatro festas por semana e que ia a um café com amigos distintos três ou quatro vezes por semana e que ele cumprimentava as pessoas na rua quando ia de um bar a outro e de uma turma a outra. Que ele ia para um bairro da cidade sem combinar nada com ninguém e que lá descobria quem tinha saído também. É simplesmente inacreditável. O sentimento de peso da vida para ele é aparentemente desconhecido."
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Jeitinho Brasileiro
No supermercado, eu disse para o Wolfram que a gente não precisava de chocolate em pó porque eu tinha comprado chocolate para fazer brigadeiro para os meus colegas e ainda tinha 3/4 da embalagem sobrando no meu apartamento. Wolfram topou a ideia. Quando abrimos a minha dispensa, Wolfram se assustou com o que viu. O que eu tinha era cacau e não chocolate.
Tentei desestressá-lo: "Não se preocupa. Eu faço chocolate com açúcar, cacau, leite e manteiga quando a gente chegar no seu loft. Vai dar tudo certo. Calma." Eu sabia que chocolate era feito com esses ingredientes porque sempre leio os rótulos dos produtos que compro. Nunca havia feito chocolate de fato. Mas quão difícil pode ser fazer chocolate?!
Chegando no loft dele, Wolfram me entregou açúcar, leite, manteiga e o meu cacau. Perguntei se ele queria chocolate amargo ou chocolate ao leite. Ele queria amargo: ótimo, porque eu sempre compro um Lindt delicioso 70% cacau e ele é amargo. Se 70% é cacau, 30% é leite, açúcar e manteiga. Como no processo o leite evapora quase todo, separei 3 partes de leite, 1 de manteiga, 2 de açúcar e 7 de cacau.
Comecei o processo caramelizando o açúcar. Quando estava quase dourando e já líquido, adicionei o leite lentamente. Fui mexendo até dissolver o caramelo. Abaixei a temperatura e adicionei a manteiga. Deixei derreter e misturar com o leite e o caramelo. Adicionei então cacau e bati até a massa tomar consistência de chocolate. Ficou perfeito!
Usamos o chocolate amargo como ingrediente da cobertura de chocolate do bolo de passas e coco que o Wolfram fez. Está uma delícia!
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
O canto gelado e a escuridão
Daniel: Onde coloco a torta de pera?
Wolfram: Num canto gelado.
Daniel: Ok.
Daniel: Por que esse personagem fala tanto de escuridão no Mississipi? Lá tem tanto sol.
Wolfram: É assim que ele enxerga o mundo.
Daniel: Acho que ele aprendeu escuridão assim como eu aprendi neve. Escuridão para ele é algo que existe só na imaginação.
Wolfram: Não, para ele a escuridão existe sim no Mississipi.
Personagem: Aqui no Mississipi eu só vejo escuridão.
Daniel: É. Você tem razão.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Onde uns devoram os outros
Cada aluno trouxe hoje uma música que considerava representar bem a sua cultura. Malin, da Suécia, trouxe a música "Deus deve querer que algumas pessoas usem sempre sapatos velhos". Eu trouxe "Te devoro" do Djavan. Traduzi a letra e expliquei que esses comentários eróticos hiperbólicos e hipotéticos em músicas são entendidos como elogios românticos no Brasil.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Assim se fala lá, assim se fala aqui
Wolfram colocou a faixa 66 do CD de Francês para tocar e o exercício começou. A instrução era mais ou menos assim: Capítulo 8: Exercício 3: Atividade 2b: Exercício de Audição: Ouça o diálogo e identifique se os H das palavras listadas são aspirados ou não. Wolfram ouviu o diálogo com a mão suspensa sobre o papel. Terminada a faixa, foi ao toca-CD e a pôs para tocar novamente. Ouviu com atenção e fez uma expressão de frustração quando ouviu Capítulo 9: Exercício 2: [...]. Foi ao toca-CD e voltou duas faixas. Sentou-se rapidamente, fechou os olhos, apoiou os dois cotovelos na mesa e a testa nas mãos. Nesse momento, parei de me mover para não produzir nenhum ruído no ambiente e deixar o som o mais claro possível. Quando o exercício terminou, Wolfram me disse:
Wolfram: Eu não consigo ouvir o H aspirado. Estou enfrentando o mesmo problema que você tem para distinguir o ö e o ü. Eu não consigo ouvir a diferença.
Daniel: Você não tem que ouvir o H. A letra H não é pronunciada em francês. Apesar de o H aspirado ser chamado de "aspirado", ele é uma letra sem som igual ao H mudo.
Wolfram: Mas no exercício se pede para dizer quando é um H e quando é o outro. É um exercício de audição, então tem de haver um som.
Daniel: Existe diferença sim, mas a diferença está na palavra anterior. A diferença entre d' e de no francês é igual à diferença entre a e an no inglês. Você tem que ouvir essa diferença.
Wolfram: Eu não consigo ouvir a diferença. Isso é fácil para você. Para mim é muito complicado.
domingo, 7 de novembro de 2010
Conversa na Cozinha
Enquanto Wolfram e eu ouvíamos música clássica e preparávamos uma torta de pera, canela e gengibre, conversávamos sobre física quântica, linguística, arte moderna e relacionamentos. A conversa era mais ou menos assim:
Wolfram: Quando a Teoria Quântica foi proposta, vários cientistas tentaram entender o que a teoria implicava na realidade. A relação entre essa teoria e a realidade preturbou e ainda pertuba muitos cientístas.
Daniel: Como uma teoria que propõe fórmulas para se prever os resultados de fenômenos consegue perturbar cientistas?
Wolfram: Por exemplo, por essa teoria uma partícula pode ter propriedades de onda. Isso é inexplicável. Isso não pode ser compreendido. Ninguém sabe o motivo.
Daniel: Mas "ter as propriedades de partícula e de onda" não quer dizer somente que tanto as fórmulas de partícula quanto as fórmulas de onda explicam facetas do comportamento da luz? Não é somente isso?
Wolfram: É. Mas isso não é óbvio. Isso não é fácil de entender.
Daniel: Acho que o problema se resume a uma dificuldade de entender a realidade como ela é. A luz é assim.
Wolfram: Quando a Teoria Quântica foi proposta, vários cientistas tentaram entender o que a teoria implicava na realidade. A relação entre essa teoria e a realidade preturbou e ainda pertuba muitos cientístas.
Daniel: Como uma teoria que propõe fórmulas para se prever os resultados de fenômenos consegue perturbar cientistas?
Wolfram: Por exemplo, por essa teoria uma partícula pode ter propriedades de onda. Isso é inexplicável. Isso não pode ser compreendido. Ninguém sabe o motivo.
Daniel: Mas "ter as propriedades de partícula e de onda" não quer dizer somente que tanto as fórmulas de partícula quanto as fórmulas de onda explicam facetas do comportamento da luz? Não é somente isso?
Wolfram: É. Mas isso não é óbvio. Isso não é fácil de entender.
Daniel: Acho que o problema se resume a uma dificuldade de entender a realidade como ela é. A luz é assim.
sábado, 6 de novembro de 2010
Critério Implícito na Alemanha
A turma internacional chegou na Boate Savoy e se deparou com um homem negro obeso com feridas no pescoço que ocupa a posição de porteiro. Fizemos uma fila para entrar. Um por vez, o porteiro foi selecionando quem poderia entrar. Os alemães puderam entrar, o quarter-back americano pode entrar, as mulheres puderam entrar e os homens da Grécia, da Síria, da Arábia Saudita, da França e do Brasil foram barrados. Perguntei ao porteiro: "Por quê mesmo?". E ele me respondeu: "Aqui é um clube privado. Eu posso escolher quem entra sem um critério explícito.".
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Quando todo mundo está errado menos um
Hoje na sala de aula, o jovem médico da Síria expôs sua percepção de que as mulheres sempre procuram homens ricos e que os homens sempre procuram mulheres bonitas. Nesse momento, houve uma reação coletiva extremamente negativa dos estudantes homens e mulheres do Brasil, EUA, Japão e Escandinávia. Nenhuma das meninas considerava as suas escolhas exclusivamente financeiras e nenhum dos homens considerava suas escolhas exclusivamente estéticas. A percepção do médico sírio sobre os outros foi por isso fortemente rechaçada.
Em seguida, ele expôs o seu julgamento categórico de que isso é errado. Nesse ponto já estávamos todos rebatendo verbalmente e simultaneamente que o que ele dizia era injustificável. Que não é errado escolher também pelo dinheiro e pela beleza. Que dinheiro é necessário e que o desejo que a beleza traz é também importante. Mas que nenhum de nós escolhe só por um critério.
O jovem sírio continuou seu discurso independente do rechaço coletivo explicando que a escolha por dinheiro e beleza é errada porque o mundo muda, porque quem é rico pode ficar pobre e porque a beleza não é eterna. O critério a ser usado deve ser outro: uma pessoa boa continuará boa para sempre. Terminada a explicação, os ocidentais se abstiveram de tecer novos comentários e as garotas muçulmanas ajeitaram os seus véus trocando risadinhas entre si.
O jovem sírio continuou seu discurso independente do rechaço coletivo explicando que a escolha por dinheiro e beleza é errada porque o mundo muda, porque quem é rico pode ficar pobre e porque a beleza não é eterna. O critério a ser usado deve ser outro: uma pessoa boa continuará boa para sempre. Terminada a explicação, os ocidentais se abstiveram de tecer novos comentários e as garotas muçulmanas ajeitaram os seus véus trocando risadinhas entre si.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Modus Operandi
Anteontem perguntei a um transeunte se precisava comprar a passagem antes de entrar no ônibus ou se podia comprá-la depois de entrar. Ele me respondeu que eu podia comprar depois de entrar. Perguntei quanto custava a passagem e ele me respondeu que custava 1,90. Perguntei se precisava entrar no ônibus com o dinheiro já na mão e ele me explicou que sim, que é esperado que se entre já com o dinheiro na mão. Agradeci.
Ontem, depois de um encontro desajeitado, perguntei a um amigo alemão se devo apertar a mão dos meus conhecidos quando eu os encontro. Ele me explicou que se aperta a mão na hora que se conhece a pessoa, que apertar a mão é um gesto de se apresentar, que se eu apertar a mão da pessoa na segunda vez em que a gente se encontrar, ela vai pensar que eu não me lembro mais dela.
Intrigado, perguntei hoje para a minha professora quando se deve apertar a mão da outra pessoa. Ela me respondeu: "na hora em que a gente se conhece, não é? como é no Brasil?" Eu expliquei que a gente só cumprimenta com aperto de mão quando se fecha um negócio, quando se recebe um viajante, visitante ou cliente esperado em uma empresa ou quando se conhece novos colegas de trabalho. Nos outros ciclos sociais, abraços de lado, tapas leves no peito e três beijinhos são mais usados.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Cumprimento à família e aos amigos
Primeiro eu gostaria de dizer olá à minha família e aos meus amigos: olá, família e amigos! Em segundo lugar, eu gostaria de dizer que espero que o nosso governo nos próximos anos seja positivo para todos os brasileiros independente de sua profissão, família ou tradição. Espero voltar e ver um Brasil onde as pessoas consigam se sentir mais iguais umas às outras, mais auto-suficientes e mais apoiadas umas pelas outras. Um grande e forte abraço a todos!
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Perspectiva do Tempo
Tudo depende da perspectiva. Existem pessoas que vêem copos meio cheios enquanto outros vêem copos meio vazios. Surpreendentemente, essa diferença de perspectiva ocorre também com o tempo. Algumas pessoas pensam que já passou meia hora enquanto outros pensam que falta meia hora para passar.
Um dia tem 24 horas tanto no Brasil quanto na Alemanha. Contudo, enquanto os brasileiros contam quantas horas e quantos minutos do dia já passaram, os alemães contam quantos minutos faltam para completar cada hora. Funciona mais ou menos assim: as pessoas se encontram quando termina a vigésima hora (20:00), quando faltam quinze minutos para terminar a vigésima hora (19:45) ou quando a vigésima hora está meio terminada (19:30). Teoricamente, poder-se-iam por estilo estabelecer outros horários, mas na prática os alemães só agendam horários terminados em 00, 45 e 30, sempre com o término da hora em mente.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Da cidade para o vilarejo
Ontem visitei um vilarejo (Dorf) típico da Alemanha, uma pequena cidade de aproximadamente 500 habitantes chamada Imbshausen. Conversei com a prefeita, com o padre e com o maior agricultor de lá. Os principais problemas do vilarejo segundo a prefeita são a baixa fertilidade das mulheres (1.3 filhos por mulher), a baixa retenção dos jovens e a ausência de comércio local. A cidade se transformou em uma cidade satélite para dormir. Conversando com o agricultor, fiquei sabendo que somente quatro pessoas trabalham no campo atualmente: ele, o sócio e dois empregados fixos. Os quatro formam uma equipe multi-disciplinar: um gestor financeiro, um agrônomo, um biólogo e um engenheiro mecânico. Eles fazem tudo o que é necessário, desde dar manutenção e programar as máquinas pesadas, até armazenar, selecionar e vender os grãos. Todas as outras pessoas trabalham em outras cidades e vão para Imbshausen somente para dormir.
domingo, 24 de outubro de 2010
Amizade no Restaurante
Estava comendo um delicioso peixe na Nordsee, quando um senhor de 74 anos da mesa ao lado me perguntou de onde eu vinha. Esta foi a deixa para começarmos a conversar sobre diversos temas. Ele comentou, por exemplo, dos médicos sauditas que têm conseguido vagas de trabalho na Alemanha e o tanto que isso tem desincentivado os alemães a seguirem uma carreira de medicina. Durante a conversa, ele me perguntou se eu pretendo continuar na Alemanha ou voltar ao Brasil depois dos meus estudos. Eu respondi, como sempre faço quando me perguntam isso, que talvez eu vá para Tokyo. Marcamos de nos vermos novamente para tomar um café no próximo sábado às 11 horas na frente da antiga casa legislativa de Göttingen.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Amizade na Lavanderia
Semana passada, conheci o Nils, de Cuxhaven, na lavanderia enquanto esperávamos as máquinas lavarem nossas roupas. Ele trabalha na região e passa na lavanderia toda sexta-feira. Hoje, enquanto novamente esperávamos os 55 minutos da lavagem, eu o convidei para ir ao Irish Pub com alguns amigos que fiz aqui. Ele adorou a ideia!
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Estranhamento I
Estou vivendo em um país no qual eu não nasci e não cresci. Estou atento a tudo o que ocorre ao meu redor. Observo cada detalhe que a gente só observa quando é criança. Memorizo desde a rugosidade da parede até a textura da minha roupa de cama. O cheiro dos caminhos por onde passo. A sensação de pisar no chão molhado e frio sobre as folhas secas que caíram das árvores. O ruído das bicicletas, dos carros, das portas e dos sapatos que batem na calçada de pedra. Estou construindo aos poucos uma memória emotiva desta pequena cidade.
No meio de todas essas novas imagens e sons, presto bastante atenção nos riscos sobre paredes, vitrines e papéis e nos sons que as pessoas fazem, os quais a gente dá o elegante nome de língua. Observo como um sociólogo a minha própria interação com os alemães e principalmente as reações emotivas que expressam o reconhecimento de que eu não nasci e cresci aqui.
O que mais me espantou até o presente momento foi o fato, que até então me havia passado batido, de que existem três alturas de letra e não duas. Letras pequenas, médias e grandes. As letras maiúsculas são todas grandes e pertencem ao terceiro grupo: ABCDE. Até aqui, pareço falar algo que nenhum brasileiro estranharia. No entanto, descobri que as letras minúsculas i e t têm a mesma altura, são letras médias. Ambas são menores do que b, d, l e k e maiores que a, e, o, e u. Comparem vocês mesmos: bdlk it aeou. Só descobri isso quando estranharam minha grafia: meus algarismos e números são ora estranhos ora ilegíveis para os alemães. Ciente disso, passei ontem e hoje praticando a grafia alemã e agora começo a entender o que é belo por aqui.
No meio de todas essas novas imagens e sons, presto bastante atenção nos riscos sobre paredes, vitrines e papéis e nos sons que as pessoas fazem, os quais a gente dá o elegante nome de língua. Observo como um sociólogo a minha própria interação com os alemães e principalmente as reações emotivas que expressam o reconhecimento de que eu não nasci e cresci aqui.
O que mais me espantou até o presente momento foi o fato, que até então me havia passado batido, de que existem três alturas de letra e não duas. Letras pequenas, médias e grandes. As letras maiúsculas são todas grandes e pertencem ao terceiro grupo: ABCDE. Até aqui, pareço falar algo que nenhum brasileiro estranharia. No entanto, descobri que as letras minúsculas i e t têm a mesma altura, são letras médias. Ambas são menores do que b, d, l e k e maiores que a, e, o, e u. Comparem vocês mesmos: bdlk it aeou. Só descobri isso quando estranharam minha grafia: meus algarismos e números são ora estranhos ora ilegíveis para os alemães. Ciente disso, passei ontem e hoje praticando a grafia alemã e agora começo a entender o que é belo por aqui.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Tolerância
O tema que temos discutido nas aulas de alemão é tolerância. Minha sala é composta por 8 pessoas de países islâmicos: dos quais uma iraniana, cinco sauditas, um sírio e um egípcio; dois japoneses, uma sueca, um brasileiro e três americanos: dos quais um quarterback, uma descendente de alemães judeus e uma descendente de alemães dissidentes.
O mais interessante são as discussões durante as aulas sobre o tema tolerância. O rapaz da síria, por exemplo, faz comentários como "nós temos que tolerar uns aos outros mas não temos que aceitar, né?" e "se for assim, então todo mundo pode fazer o que quiser. é isso?" Ele se demonstra incapaz de entender que nós respeitamos as leis e que pagamos os impostos e que isso basta. Muito menos percebe a base histórica para esse estado cujas leis são o mínimo necessário para que todos tenham as mesmas chances, continuem sendo livres e se apóiem mutuamente.
É muito difícil explicar o que é tolerância para pessoas que acreditam muito fortemente em uma doutrina ou em um sistema lógico de certo e errado. O mais interessante é que, pelo que vejo nas aulas, não se trata de ensinar para os europeus, os japoneses, os americanos e os brasileiros que aqui estão o que é tolerância. Trata-se de impor a uma cultura estrangeira um valor que nela aparentemente não existe e que – suponho – a destruiria em sua essência se incorporado.
Eu vou conversar com o rapaz sírio uma hora. Chamá-lo para sair com a turma internacional. Vou por à prova o quanto conseguimos coexistir no mesmo mundo. Espero um ótimo resultado! =)
O mais interessante são as discussões durante as aulas sobre o tema tolerância. O rapaz da síria, por exemplo, faz comentários como "nós temos que tolerar uns aos outros mas não temos que aceitar, né?" e "se for assim, então todo mundo pode fazer o que quiser. é isso?" Ele se demonstra incapaz de entender que nós respeitamos as leis e que pagamos os impostos e que isso basta. Muito menos percebe a base histórica para esse estado cujas leis são o mínimo necessário para que todos tenham as mesmas chances, continuem sendo livres e se apóiem mutuamente.
É muito difícil explicar o que é tolerância para pessoas que acreditam muito fortemente em uma doutrina ou em um sistema lógico de certo e errado. O mais interessante é que, pelo que vejo nas aulas, não se trata de ensinar para os europeus, os japoneses, os americanos e os brasileiros que aqui estão o que é tolerância. Trata-se de impor a uma cultura estrangeira um valor que nela aparentemente não existe e que – suponho – a destruiria em sua essência se incorporado.
Eu vou conversar com o rapaz sírio uma hora. Chamá-lo para sair com a turma internacional. Vou por à prova o quanto conseguimos coexistir no mesmo mundo. Espero um ótimo resultado! =)
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Jornais Brasileiros Não Prestam
Odeio a campanha de dispersão orquestrada pelos jornais brasileiros. A nossa mídia é comandada por pessoas imaturas, inconsequentes e irresponsáveis. Devido à nossa imprensa, passei uma tarde como um apátrida e pensando para qual país eu deveria emigrar após minha temporada na Alemanha. Somente depois de ouvir a própria candidata Dilma reiterar sua posição, retomei a minha identidade brasileira.
Minha amiga vota na Dilma
Minha amiga me disse:
Também acho legítimo o descontentamento do Saulo [e do Daniel], mas, primeiro, a maioria é o voto conservador. A gente que vive na cidade grande, no meio gay, acaba esquecendo isso. Inclusive, foi a tal da maioria conservadora e os em cima do muro que levaram essa eleição para o segundo turno.
Eu também acho legítimo eu ficar com raiva de quem vota no Serra por motivos esdrúxulos, mas nem por isso vou votar no Serra só para poder falar "bem feito". Meus motivos para votar não são emocionais, não são de simpatia, carinho e amor com os candidatos. Nem de raiva, ressentimento e mágoa.
Acho que não escolher um lado é se omitir, não diz nada para ninguém. Ninguém tá nem aí pros votos nulos e brancos. É a ilusão de quem votou no Tiririca como protesto, esperando que um ser superior vá enxergar o ridículo e mudar as regras do jogo, quando o tal superior na verdade é o congresso, e quem tá no congresso é o Tiririca. Você acha que votos omissos vão sensibilizar quem? Sério... Quem vai olhar para olhar para o seu voto e pensar: "Unh... Vou mudar." Quem ganhar, Dilma ou Serra, isso que vai ficar marcado. Vai ter sido a campanha que deu certo. E me dá ânsia imaginar que alguma minoria se omita e deixe um partido contra movimentos sociais e diminuição da desigualdade ficar no poder. Lembrando ainda que, se isso acontecer, qual vai ser a mensagem que vai ficar: "A campanha religiosa deu certo. Viva!".
Dessa eleição vai sair um ganhador, por mais que você se omita. E o ganhador não vai estar nem aí para quem votou nulo como protesto. Nem o perdedor. Não existe esse ser superior que vai mudar as regras do jogo por causa do seu protesto.
Quanto ao movimento feminista, está beeeem atuante. Posso te falar porque participo. Mas todas temos consciência de que quem está colocando esses assuntos em pauta é contra a gente, como pode ser lido no post de um blog feminista que mandei dias atrás. Os nossos direitos estão sendo usados como manobra para quem é contra a gente. E nós não vamos dar mais força para essa pauta. Não vamos alimentar o discurso egoísta do Serra e da Igreja. Somos mais espertas ;)
Ninguém ofende minha inteligência enquanto eu não deixar. Enquanto eu souber o que estão tentando fazer comigo e que não vou deixar. Não venham me manipular.
Nós feministas vamos agora falar de distribuição de renda, de promoção da igualdade e da diversidade, da melhoria que o país viveu nos últimos 8 anos. Depois da eleição, fazemos nossa campanha. E sabemos que seremos ouvidas.
Carta Aberta – Mágoa
Após os pactos entre as igrejas evangélicas e os candidatos Dilma Rousseff e José Serra, em que se anuncia abertamente a exclusão dos homossexuais (5.8% da população) enquanto sujeitos de direito a serem representados, considero que não há mais divisão entre Estado e Igreja no Brasil.
O Estado Brasileiro não é mais laico. Vivemos uma época em que os direitos civis serão explicitamente reservados ao grupo que se auto-intitula "melhor". Esta é uma época aristocrática, em que o governo é dominado pelos que se julgam melhores e em que se reservam os direitos civis exclusivamente a esse grupo. Damos agora a Deus o país que antes pertencia a todos aqueles que aí nasceram.
Depois desses pactos, eu, enquanto ateu e homossexual, não me considero integrante do povo seleto que ambos os candidatos pretendem governar. A partir deste momento, não me apresentarei mais como brasileiro e me considero excluído desse grupo seleto que não me considera cidadão. Sou e continuarei sendo absolutamente contrário à existência de um governo no território brasileiro até que o governo seja legítimo e até que eu faça parte novamente do povo representado.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Göttingen
Conheci muita gente em Göttingen já na primeira semana. Em especial, conheci o Baltasar, um bávaro que estuda física na Universidade de Göttingen. Ele curte escalar os Alpes Bávaros e conta várias histórias sobre o seu pai que é artista plástico e a sua mãe que é diretora de cinema. Um sujeito muito interessante.
Ele estava hospedado no Albergue da Juventude quando eu o conheci. Um dia, ele acabou ficando sem quarto para dormir porque não se pode fazer reservas para muitas noites consecutivas nos albergues. Então ele veio para o meu quarto e ficou hospedado comigo até esta segunda-feira quando ficou livre o apartamento que ele alugou com amigos. Acabamos nos conhecendo melhor e nós nos tornamos um o apoio do outro aqui em Göttingen. Pelo menos até nós dois conhecermos mais gente. Esta vai ser uma amizade que vou levar comigo daqui.
Ele estava hospedado no Albergue da Juventude quando eu o conheci. Um dia, ele acabou ficando sem quarto para dormir porque não se pode fazer reservas para muitas noites consecutivas nos albergues. Então ele veio para o meu quarto e ficou hospedado comigo até esta segunda-feira quando ficou livre o apartamento que ele alugou com amigos. Acabamos nos conhecendo melhor e nós nos tornamos um o apoio do outro aqui em Göttingen. Pelo menos até nós dois conhecermos mais gente. Esta vai ser uma amizade que vou levar comigo daqui.
Além do Baltasar, conheci Nicole (Michigan), Malin (Suécia), Emily (New York), Hadiya (Arábia Saudita), Nina (Alemanha), André (Brasil), Björn (Noruega), Axel (Alemanha), Sascha (Alemanha) e Thomas (Alemanha)... A lista não termina. Muita gente, muita gente interessante, para tão curto tempo.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Algo mudou em mim
Meses depois de chegar a BH, lembro da minha viagem à Alemanha como uma memória distante. A minha vida antes da viagem e a minha vida depois poderiam ser descritas como idênticas se eu fosse a mesma pessoa. Felizmente, não sou.
Ainda vou conseguir explicar o que mudou em mim um dia remoto no futuro. Até o presente momento, não sei precisar a natureza da minha transformação. Consigo somente contrastar os meus desejos anteriores e posteriores à viagem. Se antes eu mais queria mudar o mundo, agora mais quero viver bem. Se antes eu respeitava as diferenças, agora considero todos os outros seres humanos como eu. Se antes eu entendia o mundo, agora vivo nele. Essas palavras podem parecer vagas para quem lê, mas são a representação que consigo fazer sobre a minha transformação.
Tornei-me uma pessoa melhor? Uma pessoa mais bem adaptada ao mundo? Bem provavelmente não, mas eu me sinto mais vivo.
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