sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Perspectiva do Tempo

Tudo depende da perspectiva. Existem pessoas que vêem copos meio cheios enquanto outros vêem copos meio vazios. Surpreendentemente, essa diferença de perspectiva ocorre também com o tempo. Algumas pessoas pensam que já passou meia hora enquanto outros pensam que falta meia hora para passar.

Um dia tem 24 horas tanto no Brasil quanto na Alemanha. Contudo, enquanto os brasileiros contam quantas horas e quantos minutos do dia já passaram, os alemães contam quantos minutos faltam para completar cada hora. Funciona mais ou menos assim: as pessoas se encontram quando termina a vigésima hora (20:00), quando faltam quinze minutos para terminar a vigésima hora (19:45) ou quando a vigésima hora está meio terminada (19:30). Teoricamente, poder-se-iam por estilo estabelecer outros horários, mas na prática os alemães só agendam horários terminados em 00, 45 e 30, sempre com o término da hora em mente.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Da cidade para o vilarejo

Ontem visitei um vilarejo (Dorf) típico da Alemanha, uma pequena cidade de aproximadamente 500 habitantes chamada Imbshausen. Conversei com a prefeita, com o padre e com o maior agricultor de lá. Os principais problemas do vilarejo segundo a prefeita são a baixa fertilidade das mulheres (1.3 filhos por mulher), a baixa retenção dos jovens e a ausência de comércio local. A cidade se transformou em uma cidade satélite para dormir. Conversando com o agricultor, fiquei sabendo que somente quatro pessoas trabalham no campo atualmente: ele, o sócio e dois empregados fixos. Os quatro formam uma equipe multi-disciplinar: um gestor financeiro, um agrônomo, um biólogo e um engenheiro mecânico. Eles fazem tudo o que é necessário, desde dar manutenção e programar as máquinas pesadas, até armazenar, selecionar e vender os grãos. Todas as outras pessoas trabalham em outras cidades e vão para Imbshausen somente para dormir.

domingo, 24 de outubro de 2010

Amizade no Restaurante

Estava comendo um delicioso peixe na Nordsee, quando um senhor de 74 anos da mesa ao lado me perguntou de onde eu vinha. Esta foi a deixa para começarmos a conversar sobre diversos temas. Ele comentou, por exemplo, dos médicos sauditas que têm conseguido vagas de trabalho na Alemanha e o tanto que isso tem desincentivado os alemães a seguirem uma carreira de medicina. Durante a conversa, ele me perguntou se eu pretendo continuar na Alemanha ou voltar ao Brasil depois dos meus estudos. Eu respondi, como sempre faço quando me perguntam isso, que talvez eu vá para Tokyo. Marcamos de nos vermos novamente para tomar um café no próximo sábado às 11 horas na frente da antiga casa legislativa de Göttingen.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Amizade na Lavanderia

Semana passada, conheci o Nils, de Cuxhaven, na lavanderia enquanto esperávamos as máquinas lavarem nossas roupas. Ele trabalha na região e passa na lavanderia toda sexta-feira. Hoje, enquanto novamente esperávamos os 55 minutos da lavagem, eu o convidei para ir ao Irish Pub com alguns amigos que fiz aqui. Ele adorou a ideia!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Estranhamento I

Estou vivendo em um país no qual eu não nasci e não cresci. Estou atento a tudo o que ocorre ao meu redor. Observo cada detalhe que a gente só observa quando é criança. Memorizo desde a rugosidade da parede até a textura da minha roupa de cama. O cheiro dos caminhos por onde passo. A sensação de pisar no chão molhado e frio sobre as folhas secas que caíram das árvores. O ruído das bicicletas, dos carros, das portas e dos sapatos que batem na calçada de pedra. Estou construindo aos poucos uma memória emotiva desta pequena cidade.

No meio de todas essas novas imagens e sons, presto bastante atenção nos riscos sobre paredes, vitrines e papéis e nos sons que as pessoas fazem, os quais a gente dá o elegante nome de língua. Observo como um sociólogo a minha própria interação com os alemães e principalmente as reações emotivas que expressam o reconhecimento de que eu não nasci e cresci aqui.

O que mais me espantou até o presente momento foi o fato, que até então me havia passado batido, de que existem três alturas de letra e não duas. Letras pequenas, médias e grandes. As letras maiúsculas são todas grandes e pertencem ao terceiro grupo: ABCDE. Até aqui, pareço falar algo que nenhum brasileiro estranharia. No entanto, descobri que as letras minúsculas i e t têm a mesma altura, são letras médias. Ambas são menores do que b, d, l e k e maiores que a, e, o, e u. Comparem vocês mesmos: bdlk it aeou. Só descobri isso quando estranharam minha grafia: meus algarismos e números são ora estranhos ora ilegíveis para os alemães. Ciente disso, passei ontem e hoje praticando a grafia alemã e agora começo a entender o que é belo por aqui.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Tolerância

O tema que temos discutido nas aulas de alemão é tolerância. Minha sala é composta por 8 pessoas de países islâmicos: dos quais uma iraniana, cinco sauditas, um sírio e um egípcio; dois japoneses, uma sueca, um brasileiro e três americanos: dos quais um quarterback, uma descendente de alemães judeus e uma descendente de alemães dissidentes.

O mais interessante são as discussões durante as aulas sobre o tema tolerância. O rapaz da síria, por exemplo, faz comentários como "nós temos que tolerar uns aos outros mas não temos que aceitar, né?" e "se for assim, então todo mundo pode fazer o que quiser. é isso?" Ele se demonstra incapaz de entender que nós respeitamos as leis e que pagamos os impostos e que isso basta. Muito menos percebe a base histórica para esse estado cujas leis são o mínimo necessário para que todos tenham as mesmas chances, continuem sendo livres e se apóiem mutuamente.

É muito difícil explicar o que é tolerância para pessoas que acreditam muito fortemente em uma doutrina ou em um sistema lógico de certo e errado. O mais interessante é que, pelo que vejo nas aulas, não se trata de ensinar para os europeus, os japoneses, os americanos e os brasileiros que aqui estão o que é tolerância. Trata-se de impor a uma cultura estrangeira um valor que nela aparentemente não existe e que – suponho – a destruiria em sua essência se incorporado.

Eu vou conversar com o rapaz sírio uma hora. Chamá-lo para sair com a turma internacional. Vou por à prova o quanto conseguimos coexistir no mesmo mundo. Espero um ótimo resultado! =)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Jornais Brasileiros Não Prestam

Odeio a campanha de dispersão orquestrada pelos jornais brasileiros. A nossa mídia é comandada por pessoas imaturas, inconsequentes e irresponsáveis. Devido à nossa imprensa, passei uma tarde como um apátrida e pensando para qual país eu deveria emigrar após minha temporada na Alemanha. Somente depois de ouvir a própria candidata Dilma reiterar sua posição, retomei a minha identidade brasileira.

Minha amiga vota na Dilma

Minha amiga me disse:

Também acho legítimo o descontentamento do Saulo [e do Daniel], mas, primeiro, a maioria é o voto conservador. A gente que vive na cidade grande, no meio gay, acaba esquecendo isso. Inclusive, foi a tal da maioria conservadora e os em cima do muro que levaram essa eleição para o segundo turno.

Eu também acho legítimo eu ficar com raiva de quem vota no Serra por motivos esdrúxulos, mas nem por isso vou votar no Serra só para poder falar "bem feito". Meus motivos para votar não são emocionais, não são de simpatia, carinho e amor com os candidatos. Nem de raiva, ressentimento e mágoa.

Acho que não escolher um lado é se omitir, não diz nada para ninguém. Ninguém tá nem aí pros votos nulos e brancos. É a ilusão de quem votou no Tiririca como protesto, esperando que um ser superior vá enxergar o ridículo e mudar as regras do jogo, quando o tal superior na verdade é o congresso, e quem tá no congresso é o Tiririca. Você acha que votos omissos vão sensibilizar quem? Sério... Quem vai olhar para olhar para o seu voto e pensar: "Unh... Vou mudar." Quem ganhar, Dilma ou Serra, isso que vai ficar marcado. Vai ter sido a campanha que deu certo. E me dá ânsia imaginar que alguma minoria se omita e deixe um partido contra movimentos sociais e diminuição da desigualdade ficar no poder. Lembrando ainda que, se isso acontecer, qual vai ser a mensagem que vai ficar: "A campanha religiosa deu certo. Viva!".

Dessa eleição vai sair um ganhador, por mais que você se omita. E o ganhador não vai estar nem aí para quem votou nulo como protesto. Nem o perdedor. Não existe esse ser superior que vai mudar as regras do jogo por causa do seu protesto.

Quanto ao movimento feminista, está beeeem atuante. Posso te falar porque participo. Mas todas temos consciência de que quem está colocando esses assuntos em pauta é contra a gente, como pode ser lido no post de um blog feminista que mandei dias atrás. Os nossos direitos estão sendo usados como manobra para quem é contra a gente. E nós não vamos dar mais força para essa pauta. Não vamos alimentar o discurso egoísta do Serra e da Igreja. Somos mais espertas ;)

Ninguém ofende minha inteligência enquanto eu não deixar. Enquanto eu souber o que estão tentando fazer comigo e que não vou deixar. Não venham me manipular.

Nós feministas vamos agora falar de distribuição de renda, de promoção da igualdade e da diversidade, da melhoria que o país viveu nos últimos 8 anos. Depois da eleição, fazemos nossa campanha. E sabemos que seremos ouvidas.

Carta Aberta – Mágoa

Após os pactos entre as igrejas evangélicas e os candidatos Dilma Rousseff e José Serra, em que se anuncia abertamente a exclusão dos homossexuais (5.8% da população) enquanto sujeitos de direito a serem representados, considero que não há mais divisão entre Estado e Igreja no Brasil.

O Estado Brasileiro não é mais laico. Vivemos uma época em que os direitos civis serão explicitamente reservados ao grupo que se auto-intitula "melhor". Esta é uma época aristocrática, em que o governo é dominado pelos que se julgam melhores e em que se reservam os direitos civis exclusivamente a esse grupo. Damos agora a Deus o país que antes pertencia a todos aqueles que aí nasceram.

Depois desses pactos, eu, enquanto ateu e homossexual, não me considero integrante do povo seleto que ambos os candidatos pretendem governar. A partir deste momento, não me apresentarei mais como brasileiro e me considero excluído desse grupo seleto que não me considera cidadão. Sou e continuarei sendo absolutamente contrário à existência de um governo no território brasileiro até que o governo seja legítimo e até que eu faça parte novamente do povo representado.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Göttingen

Conheci muita gente em Göttingen já na primeira semana. Em especial, conheci o Baltasar, um bávaro que estuda física na Universidade de Göttingen. Ele curte escalar os Alpes Bávaros e conta várias histórias sobre o seu pai que é artista plástico e a sua mãe que é diretora de cinema. Um sujeito muito interessante.

Ele estava hospedado no Albergue da Juventude quando eu o conheci. Um dia, ele acabou ficando sem quarto para dormir porque não se pode fazer reservas para muitas noites consecutivas nos albergues. Então ele veio para o meu quarto e ficou hospedado comigo até esta segunda-feira quando ficou livre o apartamento que ele alugou com amigos. Acabamos nos conhecendo melhor e nós nos tornamos um o apoio do outro aqui em Göttingen. Pelo menos até nós dois conhecermos mais gente. Esta vai ser uma amizade que vou levar comigo daqui.

Além do Baltasar, conheci Nicole (Michigan), Malin (Suécia), Emily (New York), Hadiya (Arábia Saudita), Nina (Alemanha), André (Brasil), Björn (Noruega), Axel (Alemanha), Sascha (Alemanha) e Thomas (Alemanha)... A lista não termina. Muita gente, muita gente interessante, para tão curto tempo.