Às 22h de terça-feira, chamo um amigo para irmos de carro conversar sobre a viagem no Café com Letras. Ele, um admirador de BH, comenta que não percebe BH tão provinciana quanto eu percebo, talvez por ele fazer parte dela, talvez por eu ter tido experiências diferentes das dele, talvez por ele não ser tão facilmente afetado pelos outros quanto eu. Depois de eu contar detalhes que somente dizemos entre amigos sobre a exposição excessiva do sexo, ele surpreso considera que talvez seja melhor sermos como somos em BH e que temos motivos científicos para isso. Ele bem provavelmente tem razão.
No almoço de quarta-feira, meus avós se sentam na mesa com meu pai, minha mãe, minha irmã e comigo. Minha avó faz então as perguntas mais relevantes que já me fizeram sobre a força das mulheres alemãs e sobre o trato ruim para com os idosos. Três perguntas e só. Todos se interessaram em ouvir as anedotas em resposta à minha avó sobre o que aconteceu na minha presença tentando imaginar como se é na Alemanha. Escolhendo anedotas específicas dentre as várias possíveis, a imagem que construo de lá é a de um lugar exótico onde tudo é diferente. Os pontos comuns como a gravidade, a inércia, o carboidrato, a gordura, o sal, o açúcar, os edulcorantes, a água potável, os seres humanos, os cachorros, a luz do sol, a chuva, os telefones celulares, os banheiros, os bancos, as mesas, as bicicletas assim como todo o resto não parecem atrair a atenção.
Às 21h de quarta-feira, pego uma amiga de carro para conversarmos sobre nossas vidas. Conversamos sobre nossas questões pessoais, sobre nossas perspectivas e planos, sobre nossos desejos e frustrações, sobre amores, sobre relacionamentos com colegas, amigos e familiares, sobre nossa personalidade muito similar e sobre como mudarmos o nosso futuro, que já parece um pouco traçado tanto para mim quanto para ela.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Da ordem perfeita para a província
Já no aeroporto, quando os primeiros brasileiros se aglomeravam na fila do check-in, senti um aperto no peito ao ouvir as socializações bem humoradas de cunho sexista - ainda bem que não tem tanto viado no Brasil, né - entre os passageiros. Respirei fundo, entrei no avião falando alemão - ne cola light, bitte - e tentei me divertir assistindo despistado e sozinho ao filme Mamma mia! Infelizmente, sofri o drama da menina que não sabia quem era o seu pai e não consegui imitar os deuses do filme que riam dos problemas banais das nossas vidas.
Ao chegar, tive a estranheza de me deparar com conceitos como pessoas simples, guardinhas, bárbaros, caráter animalesco, pensamento irracional, de ter de falar baixo sobre questões sociais para os empregados não ouvirem, de ouvir que fiquei dando bandeira na rua ao usar o telefone público e de perceber um modo como eu pensava anteriormente.
Hoje, para mim, duas obras de arte ganharam um sentido mais forte. A sensação que tenho ao vir para BH é idêntica àquela provocada pelas cenas finais do filme Jean Charles. Enquanto isso, a sensação de sair da Alemanha é – ainda hoje – muito similar ao alívio de escapar do vertiginoso jardim da ordem perfeita no museu dos judeus em Berlim. Por um lado alívio ao partir, por outro lado preguiça ao chegar.
Ao chegar, tive a estranheza de me deparar com conceitos como pessoas simples, guardinhas, bárbaros, caráter animalesco, pensamento irracional, de ter de falar baixo sobre questões sociais para os empregados não ouvirem, de ouvir que fiquei dando bandeira na rua ao usar o telefone público e de perceber um modo como eu pensava anteriormente.
domingo, 1 de novembro de 2009
Pedaço de Berlim em Zurique
Conheci um berlinense no albergue da juventude de Zurique, Johannes, um universitário de ciências naturais com um calor humano fantástico para alguém que mora tão ao norte. Ele adora Berlim e curte muito os cafés, bares, tavernas e clubes de Kreuzberg, Schönenberg e Prenzlauerberg, os meus favoritos.
Quando disse que nasci em uma cidade do mesmo tamanho que Berlim, mas muito tradicional e que gostava de Berlin porque lá não é uma cidade conservadora, ele disse no meio de uma risada: “Berlin ist nicht traditionell, Berlin ist wunderbar!” Ele tem razão, deve ser realmente maravilhoso morar em uma cidade como Berlim, onde ao meio dia se é mais assolto que à meia noite em BH quando os mais brutos estão dormindo. Lembrei-me do meu amigo Leo, que me visitou em Berlim. Ele fala tão bem de BH quanto Johannes de Berlim. =D
Direito de entrar desde que se vá embora
Temos o direito de entrar nos países desde que pretendamos ir embora. A fronteira é uma pressão psicológica educativa, um modo de informar a todas as pessoas que entram que elas não serão acolhidas e precisam ir embora o mais rápido possível. Contudo, como eu me tornei psicologicamente um nômade que experimenta os lugares a fim de encontrar um destino final, apresentei à fronteira uma passagem só de ida e sem uma reserva de hotel.
Fronteira
Para onde você vai?
Você estuda em Zurique?
Se eu não falasse um alemão fraco e não tivesse um visto americano, não teria entrado. Se eu, o nômade, tive a oportunidade de ficar na Alemanha ou nos EUA, por que eu escolheria morar em Zurique? Ao contrário dos países onde as pessoas pertencem ao estado e são obrigadas a voltar quando saem, nos países onde as pessoas são livres, o assentamento populacional é inverso. Nesse modelo, como a migração passa a ser muito grande devido ao êxodo provocado por alguns países, os destinos – e não as origens - obrigam pessoas de certas origens a irem embora.
Aonde você vai?
“Estou indo para Zurique.”
De onde você vem?
“Estou vindo de Saarbrücken.”
O que você vai fazer em Zurique?
“Vou passear. Tenho um amigo na cidade que conheci na Argentina.”
Polícia
O que você vai fazer em Zurique?
“Vou passear. Tenho um amigo na cidade que conheci na Argentina.”
De onde você vem?
“Nasci no Brasil, fui para Buenos Aires na Argentina e passei um mês lá, onde conheci o René que morava em Basel e agora mora em Zurique, fui para o Brasil e passei dois anos lá, então fui para Berlim, passei um mês lá, fui para Bremen, passei três dias lá, fui para Saarbrücken, passei três dias lá, estou indo para Zurique para encontrar o René e vou passar dois dias lá, depois vou para o Brasil passar oito meses lá e depois, se tudo der certo, vou para Bremen fazer um doutorado.”
Para onde você vai?
“Vou para Zurique passear com o René até segunda-feira, mas eu vou ficar dois dias em um albergue da juventude e não na cada dele. Na segunda-feira eu vou para o Brasil.”
Você estuda em Zurique?
“Não, eu quero fazer um doutorado no ano que vem em Bremen e não em Zurique. Vou para Zurique passear. Eu conheço um cara chamado René Maurer que mora em Zurique e vou lá para passear com ele.”
Se eu não falasse um alemão fraco e não tivesse um visto americano, não teria entrado. Se eu, o nômade, tive a oportunidade de ficar na Alemanha ou nos EUA, por que eu escolheria morar em Zurique? Ao contrário dos países onde as pessoas pertencem ao estado e são obrigadas a voltar quando saem, nos países onde as pessoas são livres, o assentamento populacional é inverso. Nesse modelo, como a migração passa a ser muito grande devido ao êxodo provocado por alguns países, os destinos – e não as origens - obrigam pessoas de certas origens a irem embora.
Assinar:
Postagens (Atom)