Ontem fui a uma galeria de arte e entrei em uma manifestação artística pela desconstrução do conceito de fronteira e, consequentemente, de migração. O grande impacto está na óbvia constatação de que pessoas que se mudam de um lugar para outro não são imigrantes até que seja criada uma fronteira entre as duas regiões. A manifestação é tão bem feita que, ao sair de lá, passei a questionar-me sobre os limites entre os povos.
Conheci então /'ĭokob/, um computeiro que trabalha com Web 2.0 e é apaixonado com linguística computacional. Ele acabou o mestrado agora e está aprendendo alemão para procurar trabalho em Berlim. No país dele, atualmente, existe 15% de desemprego segundo os sindicatos e 10% de desemprego segundo o governo que inclui trabalho informal nos seus números quando convém. Ele participou, como ouvinte, de um movimento contra o controle da Internet em seu país e vibrou com o julgamento dos donos do Pirate Bay. Além disso, antes de vir para a Alemanha, ele tentou criar um projeto Open-Source, mas não conseguiu levar o projeto adiante. /'ĭokob/ é sueco e não brasileiro como eu. Contudo, somos quase idênticos.
Durante as aulas, aprendo um pouco sobre a história da Alemanha. Ainda faço confusão com as informações. O governo DRR (RDA em português) denominado "democrático" era uma autocracia e, apesar de dominar na época este bairro - onde fica a escola - ao leste do antigo muro, os professores dizem que "os ditadores" dominavam "lá" e não que "os nossos ditadores" dominavam "aqui". O leste longínquo, onde eles ficavam, foi levado para algum lugar entre o passado e o oriente além da próxima fronteira. Enquanto nós vivemos aqui, eles viviam no leste.
Fiquei muito incomodado quando percebi que todos os povos usam o termo "aqui" para determinar uma região geográfica delimitada por suas fronteiras políticas contemporâneas e não para determinar uma região física. Incomodamente, ao contrário do que se ouve na Alemanha, no Brasil e nos Estados Unidos, nós ocidentais vivemos em nosso território e lembramos dos povos que viviam no antigo oeste da fronteira e não no antigo leste do muro. Senti esse incômodo porque, pela primeira vez, percebi os limites oscilantes do nosso povo. Eu, que sempre me considerei no leste [da fronteira], percebo agora que estava no oeste [do povo] e que agora estou no leste [desse mesmo povo] ao oeste [da próxima fronteira].
sábado, 10 de outubro de 2009
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