Pois bem, minha mala foi entregue na escola e tive o leve desprazer de levá-la para o apartamento de metrô. Quando digo "leve desprazer", entendam que nesta postagem serei ironicamente eufêmico. Carregar dezesseis quilos de roupas e livros por ruas de pedras, por escadas e no trem em movimento, segurando tudo o que comprei nos dois primeiros dias e levando uma bolsa de notebook repleta de panfletos dependurada no pescoço, não é uma experiência fisicamente tolerável. Que isso sirva de lição para a próxima viagem: não trazer mais de dez quilos contando com a bagagem de mão. Estou com o corpo ainda doendo 20 horas depois.
À noite, resolvi sair sozinho pela Motzstraße, uma rua calma e arborizada no centro de Berlin famosa por sua vida noturna e seus excessos. Um conhecido meu havia me falado muito de seus excessos e sugerido que eu não deixasse de passar por ela. Aceitei a dica e, como todo turista inocente de uma cidade tradicional e provinciana faria, resolvi entrar em todos os bares, cafés e casas noturnas da rua para saber como eram.
Lição aprendida: nunca entrar inocentemente em uma casa noturna que: 1) tenha cortina preta, 2) uma placa dizendo Raucherzone (permitido fumar), 3) Nur Männer (somente homens) e 4) 18 Jahre Alt (somente maiores). Esses quatro itens sempre ocorrem em conjunto e são usados para atrair clientes que procuram fazer sexo em público com outros clientes ou com garotos de programa.
Entrei em uma dessas casas, assustei-me e saí, provocando um riso sarcástico dos frequentadores... Devo ter sido mais um desavisado. No restante, a rua é calma e pouco iluminada. Nela se encontram vários sex-shops, cafés, bares e casas noturnas. É frequentada principalmente por punks, góticos e gays, mas também a frequentam turistas, garotos de programa e senhores em busca de programas.
Entrei em um bar e pedi uma coca-cola zero. O garçom olhou para mim assustado como se eu fosse um extraterrestre perdido na Motzstraße. Depois seu olhar passou a demonstrar certa pena de eu - um menino tão provinciano - estar ali. Acabada a coca-cola, voltei para o apartamento de metrô, pensando no que havia visto. De certa forma, entendi as pessoas que frequentam aquela rua e, apesar de ali ser a realização física de todos os desejos sexuais mais extremos dos seres humanos, sua existência me trouxe uma sensação inesperada de que liberdade de fato não existe. Nosso senso de auto-preservação é um limite muito mais forte do que qualquer regra imposta pela sociedade.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
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